Opinião

Hortalices - A horta do Dr. Flores ou o templo da mãe-natureza

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Na semana passada, fui ter com o Dr. Flores. Estarão os leitores a pensar nalguma consulta para me queixar dos meus achaques, mas não. Também não pensem que o encontrei nalguma tertúlia poética ou bibliográfica. Também não fui ver as caixas onde se guarda a magia que, por alturas do Natal, salta para as paredes da sua casa. Não, o motivo do nosso encontro foi a horta. O Dr. Flores tem uma horta e tem muito orgulho na sua horta. Ele diz que é mais um pomar ou uma selva do que uma horta; ao percorrê-la, concordei com ele.
Aquela horta é o que resta de uma grande quinta que se estendia pela encosta da Vista Alegre, a poente da Avenida António Henriques. As partilhas entre herdeiros foram distribuindo a terra por novas casas e jardins. A horta do Dr. Flores é um dos resultados desse processo. O velho sobreiro que faz o centro da horta talvez seja a testemunha mais antiga dessa época. À sua volta, foram aparecendo nespereiras, romãzeiras, diospireiros, floridos kiwis, e uma estranha figueira que morreu e ressuscitou. E, sobre esta panóplia verde, esvoaçam melros, rolas, pegas rabudas e pombos torcazes, cada um tocando o seu instrumento. Nos intervalos das árvores, com paciência de camponês, o Dr. Flores foi construindo estruturas em cana-da-índia, espécie de gaiolas, onde se abrigam e apoiam as hortícolas. Louvei a ideia. Vi abóboras com vontade de crescer, milagrosos feijões dos sete anos, que ressuscitam de ano a ano, e fisálias a pestanejar pupilas amarelas. Mas, num canto atacado por ervas daninhas, lá estavam marcas de escavação recente, a atual frente de trabalho do hortelão. A maleita no joelho não o impede de insistir.
Perguntei-me: o que leva um homem de 96 anos a persistir no cultivo da sua horta?  A resposta talvez esteja na explicação que ele próprio me deu. “Nós temos três mães: a mãe que nos gerou, a mãe que temos no céu e a mãe-natureza”. A horta, o pomar, ou selva, como lhe quisermos chamar, é o seu lugar de encontro com esta última. Durante laboriosos anos, construiu cantos e recantos, onde se aconchegam árvores de fruto, hortaliças, arbustos e todo o género de espécies vegetais.
Se, nas suas “Viagens”, Garrett por ali tivesse passado, poderia ter dito o que disse quando passou no Vale de Santarém: “não há ali nada grandioso nem sublime”, mas “tudo quanto se vê e se sente não parece senão a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração…”
Continue, companheiro Flores!

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