Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

• Favoritos: 23


Foram muitas as patrulhas que, partindo para a terra-de-ninguém, constataram que lá tinha ficado alguém perdido, desolado e sem grandeza.

Quase todos os mortos recordados em 1937, junto à capela de Santo António, – Artur Lima, José de Sousa, Manuel Alexandre, José da Silva, Manuel e Vitorino Ferreira – eram operários chapeleiros. Infelizmente, os nossos soldados foram mal lançados à luta. Como tinha lembrado o humorista André Brun, os nossos combatentes não tinham tido muito tempo para aprenderem, minimamente, algumas artes militares e várias artimanhas de caserna. Depois, quem mandava, tinha dado a cada um uma porção de equipamentos considerados necessários e alguns conselhos considerados sumariamente úteis. Seguiu-se, logo depois, o resto da história, a que nunca tínhamos dito. A malta das trincheiras, um livro de Brun, que por lá andou, conta essa história comum, da aldeia à cidade: ... enfiaram-no num comboio, dormiu e chegou a Lisboa, que, como o herói do senhor Tomás Ribeiro, ele nunca tinha visto. Ninguém estava contente com o dia do embarque para a Flandres. Na aldeia, falara-se muito dessa partida, dos que iam para a guerra e dos que não iam, as conversas começavam a ter um rumo mais determinado. Sem dizer muitas palavras, eram poucos os que tinham inveja dos mobilizados. Vamos encontrá-los na coberta de um navio, a fumar um cigarro, com António Granjo: Alguns andam pela coberta, pálidos, espantados, escorregando na água salgada que salta sobre a amurada, agarrando-se desesperadamente às cordas, aos ferros e levando de vez em quando as mãos convulsas à garganta. Havia outros lados escuros para os que se deixavam ficar sobre as enxergas, de bruços, com a cara afogada na travesseira para que a vista dos detritos vomitados pelos que ficaram de lado lhes não provocassem novas náuseas.

Terra de ninguém

Ainda guardamos na memória esta indelicadeza: nenhum dos nossos soldados conseguiu ver Lisboa, entre comboios e navios. Puseram todos dentro do barco, que abalou cheio de pressa. Aparentemente tudo correu mais ou menos bem. Entre o feijão, a couve galega ou a batata, que qualquer soldado agradecia, e as latas que misturavam vinagre, cebola e mostarda. Ou, com as mesas mal preparadas, com os desconcertantes pickles. Foram precisos três dias, a parar em todas as estações, para o nosso soldado chegar ao seu destino. Foram poucos os que, pelos vistos, no meio do nevoeiro, estenderam as pernas em Aire-sur-la-Lys. Acabaram nas trincheiras. Foi uma boa combinação terem-se metido debaixo da terra até se enterrarem entre dois taludes, com sacos cheios de terra e redes de arame. Foram muitos os que guardaram esta imagem, a de uma França muito feia, onde fazia cada vez mais frio e onde nos sentíamos ansiosos e molhados, cheios de manchas, e onde nunca descansaríamos. Onde iriam pagar ao soldado menos do que ele esperava. Onde éramos tratados como animais; onde só comíamos batatas e tínhamos dificuldades, com os chocalhos da língua, em responder a qualquer pergunta. Faltaria alguém? Um dos nossos?
Não os atormentem. Aos que andaram nas terras-de-ninguém, sem dados biográficos. Deitamos quase tudo fora com repugnância; nunca foi bom andar por ali. Apressa, por isso, o passo o narrador. De olhos fechados: o de andarmos pela terra-de-ninguém, nas trincheiras; a caminhar de gatas, às vezes de rastos, junto ao arame farpado. Há ruindade no ar. Presente e futura. Um tempo lento, com pouco ruído, até o foguete ruidoso, bronco, iluminar o campo de batalha. Uma teima que não será idiota, a das explosões das granadas e a das cabeças a erguerem-se. Consta que um morteiro podia fazer três mortes. Que uma bota podia ficar com um pé dentro, separado, ou que a um tronco podia faltar braço. Entre granadas de mão e encontros corpo a corpo. Não havia muito espaço para improvisar, duas linhas a aproximarem-se dos arames, a iluminarem-se de fogachos e homens a desaparecerem com a barriga para baixo. Outro compasso de espera, para seguir André Brun: terra-de-ninguém era o salão de exame. Era ali que se conferiam patentes e tiravam atestados. A quem vos disser que esteve nas trincheiras perguntem se foi à terra-de-ninguém.
Foram muitas as patrulhas que, partindo para a terra-de-ninguém, constataram que lá tinha ficado alguém perdido, desolado e sem grandeza. Sabe-se que outros nem conseguiram voltar, não reconhecendo, na bruma, o caminho de volta, tendo-se afastado tanto que caíram nas mãos do inimigo. Mas também se conhecem os nomes dos que sobreviveram e regressaram, exaustos e combalidos, das trincheiras e dos campos de La Lys. Regressemos ao ano de 1919, quando se realizou a primeira festa sebastianina em S. João da Madeira. Por terem sobrevivido à Grande Guerra, da comissão de festas faziam parte uma série de soldados que andaram pelas trincheiras, enterrados entre dois taludes de terra e redes de arame. Com a mochila esfarrapada e a espingarda torcida. A lista dos que sobreviveram era mais extensa que a dos mortos. A festa era uma promessa para muitos combatentes, quase todos antigos chapeleiros, como José Maria Gomes Resende, Benjamim Pais Vieira, Manuel Joaquim Ferreira, José Alves de Freitas, Manuel Francisco Correia ou Salvador Calado... Ninguém lhes pagou mais do que aquilo que esperavam. Alguns tinham doenças contraídas nas trincheiras, outros emagreceram muito, com um sorriso estranho, como vítimas sem valor. Mas o tempo passou, sem que tivessem pago ao soldado mais do que aquilo que ele esperava. António Botto, num belo friso, comparou-os quase todos consigo. Iriam todos com ele? Soluçando de mansinho:

 

Fui jovem. – Belo como um gladiador.
E o meu corpo
Foi desejado e vencido,
Mas eu, -
Era sempre o vencedor!

Fui feliz, - tive alegria.

Abraçado á minha banza
Cantei o fado
Nas tascas da Moiraria.

Mordi bocas que choravam
Para de novo as morder.

Depois,
Um dia,
Casei, - p’ra mais vida conhecer1

Nisto
Fui chamado a assentar praça.
Vestiram-me de cotim,
Fizeram de mim soldado.
E uma tarde ouvi dizer
Que era preciso
“Dignificar” o bom nome
Deste país desgraçado.

Fui à Guerra.

Andei na Guerra
- Triste náufrago lusíada –
Em lodo e em sangue atolado,
E ao cabo de longuíssimo tormento,
Volto,
Com a certeza
De que ninguém, - nem a Pátria me socorre,
Assim pálido, partido...

E a voz quebrou-se, quebrada por um gemido...

23 Recomendações
comments icon0 comentários
0 favoritos
39 visualizações
bookmark icon

Escreva um comentário...

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *