Opinião

Passagem da estrada romana por S. João da Madeira - IV

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(continuação)

A expressão idiomática Agora é que a porca torce o rabo, de acordo com o Dicionário de Expressões Populares Portuguesas, significa agora é que começam as dificuldades. Por isso, a utilizamos à chegada da milenária estrada romana ao antigo lugar do Calvário, na sua passagem por S. João da Madeira, de acordo com o traçado definido pelos historiadores Miguel Castro e Maurício Antonino Fernandes, que nos parece ser, até ali, o mais credível.
O primeiro realizou um importante estudo sobre o trajeto da estrada romana entre o extremo norte da freguesia da Branca, do concelho de Albergaria-a-Velha, e Lourosa, do concelho de Santa Maria da Feira, que foi publicado, parcialmente, no jornal “Correio de Azeméis”, em março de 1983. Desse artigo, reproduzimos a passagem:
(…) E, continuando na nossa peregrinação, a dita estrada romana atravessava o terreno da Praça central de S. João, ou seja, a Estrada Nacional nº.1, subia ao largo de Sto. António, passando pela parte poente da linda capela do mesmo nome, cortando para o alto, para atingir o antigo Calvário, do qual nada resta. Contudo, é referido pela vox poppuli que, há anos, ao fazer-se as fundações de um prédio nesse local, se encontrou um lajeado, lajêdo ou calçada, o que nos faz pensar nos possíveis vestígios ou pequeno traço da estrada romana que por aqui passava.(…)

Pormenor de uma fotografia de Domingos Alvão (1928), junto à capela de Santo António

O lajeado a que se refere Miguel Castro só pode ser uma extensão da estrada que se vê no pormenor de uma fotografia de Domingos Alvão, tirada junto ao antigo coreto do Largo de Santo António, em 1928 (Foto 1). A sua configuração é, em tudo, idêntica à do troço da Rua do Dourado por onde, com toda a certeza, passava a estrada romana.
Maurício Fernandes, por sua vez, corrobora a opinião de Miguel Castro, no que diz respeito ao traçado da estrada entre a Praça e o Calvário, bem como a sua continuação por Arrifana até Airas, como está claramente exposto no livro S. João da Madeira – Cidade do Trabalho, de sua autoria:
(…) Que os romanos conheceram e pisaram esta terra, é ponto assente, dado que por aqui passava a via militar que eles abriram de Lisboa a Braga, deixando traços indeléveis na ponte românica da Pica (Cucujães) e nas calçadas lajeadas de guias, retiradas há meia centena de anos para arranjar a estrada que vinha de Faria de Cima pelo Outeiro, Quintã, traseiras da Igreja, Praça (das Vendas), Tapado e ia sair entre o Outeiro de Arrifana (então incluído no monte Parada de Joaz) e os terrenos da Mourisca, donde seguia para a Vergada, Mamoa de Sanfins e Airas. (…)
O traçado definido pelos dois estudiosos a partir do Calvário até à saída de Arrifana é, em nossa opinião, improvável. Quem se colocar no topo daquele antigo lugar há de reparar que uma derivação para norte (direção Rua Frederico Ulrich) ou noroeste (lugar do Tapado) implicaria pendentes acentuadas, muito acima dos 8% tolerados pelos técnicos romanos.

Caminho lajeado a que corresponde o extremo norte da Rua Jaime Afreixo e Largo de S. João, num postal do início do século XX

Para além disso, estariam a construir uma estrada numa encosta, o que punha em risco a integridade das suas tropas, sujeitando-a, ao mesmo tempo, aos inconvenientes das linhas de água e do seu poder destruidor, na época das chuvas. O mais provável é que a estrada derivasse para a Rua Conde Dias Garcia, atravessasse a Quinta dos Condes e seguisse pelas cumeadas por onde serpenteia agora a Rua Jaime Afreixo e parte da Avenida António Henriques, indo depois pela Rua José Soares da Silva até ao alto do antigo lugar da Mamoinha (Mourisca) e, daí, em direção à Rua da Estrada Real, já dentro de Arrifana, até Lourosa, passando por Airas (Rua Estrada Romana).
Nesta encruzilhada de hipotéticos traçados, não deixa de causar estranheza o facto de Maurício Fernandes apontar o Tapado – antigo lugar nas imediações do Museu da Chapelaria – como ponto de passagem da estrada romana, seguindo depois para o alto da Mamoinha ou monte Parada Joaz, como é referido por diversas vezes este lugar em Portugaliae Monumenta Historica. Quem conhece a tipologia do terreno sabe que entre estes dois pontos, separados por 1,38 km em linha reta, existe um desnível muito acentuado, de aproximadamente 90 metros, o que, só por si, tornaria inviável a construção de uma estrada, segundo a técnica adotada pelos romanos.
Mais cauteloso mostrou-se o padre João Domingues Arede, no estudo que realizou sobre as estradas romanas no distrito, disponível no Arquivo do Distrito de Aveiro – Vol. IV. No que concerne a S. João da Madeira, o estudo refere apenas o troço compreendido entre o extremo de Faria de Cima e a Praça. Dessa forma – propositada ou não – escusou-se a qualquer tipo de polémica.
Termina aqui o nosso contributo para a definição do traçado da estrada romana entre Lisboa e Braga, na sua passagem por S. João da Madeira.

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