Opinião

Passagem da estrada romana por S. João da Madeira - III

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É muito provável que os romanos tenham sentido algumas dificuldades de progressão nos terrenos ocupados hoje pela Praça Luís Ribeiro. Apesar de se tratar de um planalto, ali o solo é permeável e essa particularidade permite que a água proveniente da chuva se infiltre, sustentando assim o lençol freático existente no subsolo. Graças a ele, água foi coisa que nunca faltou na Praça. Para o bem – porque alimentou o tanque público os fontenários que, em tempos, lá foram funcionaram – e para o mal – porque ninguém ignora o transtorno causado ao edifício “Parque América”, que tem os últimos pisos subterrâneos permanentemente alagados, situação que foi atenuada depois da ligação do motor de drenagem ao coletor de águas pluviais.
Perante tais circunstâncias, a engenharia romana recorria a um reforço substancial dos materiais utilizados na construção da estrada, referidos por César Cantu, para garantirem a sua solidez e durabilidade. Terá sido isso que aconteceu na Praça. A imagem pulicada ao lado (foto 1) é uma representação desse espaço, obtida por Inácio Ferreira, no início do século XX, e nela é possível ver, no canto inferior esquerdo, um troço empedrado da atual Rua do Dourado, por onde passava a via militar romana.
Não deixa de ser curioso o facto de a estrada que entra na Praça, pelo canto inferior direito da imagem – à época Estrada Real e hoje extremo norte da Rua Visconde – se apresentar ainda em terra batida. Se atentarmos na direção que cada uma delas toma, verificamos que as lajes daquilo que julgamos ser a estrada romana apontam para um trajeto que seguia pelo Largo de Santo António até ao Calvário, enquanto a Estrada Real aponta para um trajeto coincidente com a atual Rua Oliveira Júnior.
É altura de referir que a Estrada Real decalcou, em boa parte do seu trajeto, a via romana mas, como dissemos atrás, ao longo dos tempos foram surgindo percursos alternativos ou variantes, na lógica de assegurar o acesso facilitado e trajeto capaz de otimizar a circulação de pessoas e bens. Em S. João da Madeira aconteceu isso mesmo. A Estrada Real abandonou o traçado romano e optou por um trajeto que, a sul da Praça, coincide com o da antiga EN 1 e o da atual Rua Visconde. Essa é a razão pela qual a nova igreja do povoado ficou com a entrada virada a nascente, a partir de 1884, enquanto a velha ermida que existia em seu lugar tinha a entrada voltada a poente, ou seja, para a via romana.

A Praça, numa foto de Carlos Costa, de 1948 (sentido norte-sul)

A foto 2, do “nosso” Carlos Alberto da Costa, remonta a 1948 e mostra importantes trabalhos a serem realizados na Praça, no mesmo espaço em que assinalamos, na foto 1, aquilo que julgamos ser resquícios da estrada romana. Quem olha para esta imagem sepiada, que só podia resultar da sensibilidade artística do grande fotógrafo sanjoanense, não ficará indiferente à enorme quantidade de pedra, aparentemente saída da vala cavada pelos trabalhadores. Tanto mais que, como é sabido, a natureza do solo em que assenta a Praça não é, de todo, rochosa. Sendo assim, poderá haver alguma relação desta estranha presença com a técnica utilizada pelos romanos na construção das suas estradas, a que fizemos alusão antes. Publicamos ao lado uma imagem que representa um corte transversal de uma via romana, mostrando as várias camadas de materiais utilizados, segundo a técnica referida por César Cantu.

Corte transversal de uma via romana

Alguns mapas da rede viária romana em Portugal, publicados por historiadores portugueses que se têm dedicado ao seu estudo, designadamente José Pedro Soutinho (http://viasromanas.pt), apontam como provável a passagem da estrada romana pela atual Rua Oliveira Júnior até à Torre da Oliva, seguindo depois pela Rua da Fundição, em direção ao lugar da Carvalhosa, onde terminaria a sua passagem pelo nosso concelho.
Com todo o respeito que temos pelo eminente historiador, com quem temos trocado correspondência, não nos parece que, numa primeira fase da colonização romana, tenha sido esse o trajeto da via militar na sua passagem por S. João da Madeira. Julgamos mais plausível a teoria desenvolvida pelo historiador Miguel Castro, segundo a qual, depois da sua chegada à Praça, a estrada construída pelos romanos seguia pela atual Rua de Santo António, até ao cruzamento com a Rua do Calvário. E é nesse antigo lugar de S. João da Madeira que a porca torce o rabo.

(Continua)

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