Cultura e Lazer

S. João da Madeira rende-se ao sorriso alfacinha

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Crónica de uma noite de homenagem às letras em português de Camões num “cocktail” servido à moda de um clube de Nova Iorque. Mimi Froes é um caso sério, e São João da Madeira rendeu-se do princípio ao fim!

Há vozes que nos obrigam a parar, para num mundo àparte entrar. Novembro trouxe Mimi Froes e um trio que merece palco em clubes de Nova Iorque. São João da Madeira e a Casa da Criatividade fizeram uma excelente aposta. Quem viu Mariana de guitarra no Factor X não se esquece do sorriso, da timidez que lhe conferiu (e de resto, confere) uma certa graça. Mas, ela cresceu! Compôs, viveu, estudou e em canções se há de eternizar.
Novembro é tempo das castanhas, dos tons outonais nos jardins das cidades do mundo, e por esta altura, belos são também os tons ouvidos no auditório da Casa da Criatividade.
Alguns segundos depois da hora marcada, surgem em palco três virtuosos músicos: Manuel Oliveira no piano, Rodrigo Correia no contrabaixo e Guilherme Melo na percussão. Um sorriso tímido numa blusa fina e umas calças que assentam lindamente em Mimi. Sorri ao público, e tenta vislumbrar por entre focos rostos familiares. Na sala, todos prontos para mais um certame englobado no projecto Novembro Jazz.
No alinhamento, fizeram parte os temas que compõem os dois álbuns da jovem com formação musical superior em Jazz e Música Moderna na Universidade Lusíada. “Vamos Conversar” e “A cantar”. Foi a cantar que começou sem acompanhamento, um número arrojado e não ao alcance de todos os que sobem a um palco, mas ali ficou demonstrado o porquê do convite para o certame sanjoanense.
“... Se eu chorar, se hoje eu chorar não me prendam...”, “Não faz mal não estar bem, querer um ombro para te consolar...”, “Quem sou eu p´ra me querer, escolher o que quiser...”, “Vou correr o mundo inteiro, encontrar alguém que me ponha em primeiro...”, “Mesmo que hoje venha o sono, e cansar o meu olhar...”, “Em petiza queria ser maior, e ter uma casa só para mim...”, “Se eu pudesse esmiuçar o fraco coração, diria ao mundo que esse olhar não é coisa boa, não...”, “Em ti verei verde de novo, sem ti saboreio o abandono, contigo o meu pranto renovo, na primavera e no outono...”, “Só o Tejo prende o nosso olhar sem lhe poder tocar, rendida à dor que te acompanha, rezo que nos chegue a tal janela, p´ra nos fingirmos fora dela...”. Recolhidas algumas frases dos álbuns para evidenciar a capacidade de diálogo entre palavras e a autora, a noite de onze de novembro foi verdadeiramente acolhedora e “oásica” para os aficionados do jazz, para os amantes da poesia, para os que falam e entendem o dialecto emocional das canções.
Mimi foi referindo durante o concerto da aceitação pela arte, de estar (por vezes) só nas multidões, mas também da paixão pelo improviso, pelo jazz.
O concerto acabou também por ser marcante por ser o último concerto do trio com a jovem alfacinha. Aproveitou também para apresentar palavras do novo álbum, que tem saída prevista para o primeiro semestre de 2023. “Casa da Rocha” é uma viagem à infância no Algarve, e “Não vás já” da autoria de Luísa Sobral, que a seu pedido escreveu um poema em forma de despedida dos pais para ela. Letra essa que conseguiu, segundo Mimi, levar o pai a chorar pela terceira vez na sua vida, horas antes num estúdio de gravação. Mimi conta já com uma parceria com produtores, músicos mas refere também que se algum dia não puder cantar dispõe de ferramentas (e, acima de tudo, sabedoria) para compor, orquestrar, produzir.
Se há forma melhor de descrever o que aconteceu à baixa-luz naquela casa, termino dizendo: Enquanto houver Mimi, haverá esperança na música em Portugal.

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