Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

• Favoritos: 13


1917-1937. Vinte anos tinham passado desde que os soldados do Corpo Expedicionário Português começaram a partir para a Flandres. Nas vésperas de uma nova guerra, ainda mais letal, as forças vivas de S. João da Madeira decidiram inaugurar, no dia 11 de outubro, um monumento aos soldados mortos na primeira guerra. 1937 era o décimo sexto ano de vida de O Regional. Na redação alguém costumava dizer que o jornal se fazia sempre à pressa. Como quem diz: roubados às nossas absorventes ocupações. Num olhar com brilho, um prémio pela sua determinação e valentia. Dezasseis anos passados, o jornal mantinha a índole dos primeiros tempos: pugnar, com a insistência própria de quem persegue uma ideia fixa e obsessiva, pelos interesses e pelo progresso da terra. Mas esta terra que era a nossa, nem sempre reluzia. O orgulho iluminado pelas obras no parque dos milagres, a floresta que Serafim Leite dizia ser a quinta comum dos trabalhadores sanjoanenses, e que foi manchete de tantos números do jornal da rua Oliveira Júnior, batia fundo com alguns fracassos persistentes. O orgulho tinha sombras sempre que se falava das fragilidades das escolas das primeiras letras ou da paupérrima rede de telefones, a fazer perder tempo e paciência. Para superar as debilidades, o jornal alimentava-se de uma ideia poderosa, às vezes excessiva, mas sempre cheia de afeição: o bairrismo. Toda a gente queria agarrar-se a ele, zelar por ele, lutar por ele. O bairrismo, como o patriotismo ou o nacionalismo, era uma alegria para os músculos. Como tinha dito um ilustre oliveirense da época, Albino dos Reis, o bairrismo dos sanjoanenses era tão aceso, mas tão puro que até os seus exageros devem ser perdoados.
No mês de dezembro de 1936, S. João da Madeira viveu uma impressionante demonstração desse desiderato bairrista. Há dez anos que era concelho. Tinha tido um primeiro presidente de câmara até 1934, Benjamim Araújo, um antigo emigrante no Pará, onde ficou rico. O segundo foi António Henriques, filho de um sombreiro de Carquejido e também ele antigo emigrante no Pará. Durante dez anos, António Henriques dirigiu a intensa colmeia de trabalhadores que era S. João da Madeira. Bastaram dois anos de mandato para António Henriques, pelo seu labor incansável, ser homenageado com pompa e circunstância pelos seus conterrâneos reconhecidos. A terra de António Henriques iria lembrar-se dele num banquete de que O Comércio do Porto fez reportagem. Era domingo na progressiva e risonha vila; o banquete seria deveras grandioso, a homenagem expressivamente consagrativa – verdadeiramente apoteótica. Toda a página três de O Regional foi reservada para o evento do dia 13 de dezembro. Não havia dúvidas: eram muito raras as homenagens que se realizavam tão sinceramente, com tão expressivo significado de admiração por um autarca. Em suma, na reportagem d’ O Comércio, podia dizer-se com tamanho aspeto de justiça.
Toda a gente, mais de cem, se reuniu num enorme salão, ainda por inaugurar, dos viscondes de S. João da Madeira. Eram dezanove horas quando o presidente da câmara ali chegou, acompanhado pelo diretor e administrador de O Regional, Manoel Luís Leite Júnior e José da Silva Correia. Ao entrar no salão, António Henriques escutou uma prolongada salva de palmas. Do lado de fora, enquanto um pelotão dos bombeiros fazia a guarda de honra, a banda de música tocava o hino da terra. Foguetes foram lançados para o ar, com toda a gente a esperar, vindo de Lisboa, Renato Araújo, o chefe local do partido único. A mesa do presidente começava a ficar composta. Renato Araújo do lado direito, António José Pinto de Oliveira do lado esquerdo. António Henriques pediu então um tempo de silêncio: pelos mortos Benjamim Araújo, o anterior presidente da câmara; por António José de Oliveira Júnior, o industrial dos chapéus de pelo. À espera do jantar, leram-se alguns telegramas, como os de um professor de Coimbra, Beleza dos Santos, os do visconde de Vilarinho; também a carta de João da Silva Correia, escritor da vila. A vida do autarca era uma lição de vida: a do menino que partira para o Brasil; a do seu regresso à pátria para se tornar industrial de sucesso; a de um patrão responsável pela criação de emprego, trabalho e pão; a da alma do Grupo Patriótico Sanjoanense, cujo trabalho tinha culminado na emancipação concelhia.

Monumento aos heróis da guerra

À homenagem a António Henriques, nos finais de 1936, seguiu-se a homenagem aos mortos da grande guerra. Estávamos no dia 11 de outubro de 1937, quando ao Estado Novo se parecia dever quase todo o progresso urbano de S. João da Madeira. Uma e outra homenagem andavam de mãos dadas, com a boa vontade e sacrifício de todos, de coração em coração. As maiores venturas para António Henriques, as maiores condolências para os soldados desaparecidos em combate, nas trincheiras e nos campos de batalha. Num caso ou noutro, um grande sentido patriótico. O mesmo espírito de retidão e de justiça. Os mesmos discursos eloquentes. Sinceros e brilhantes. Num caso e noutro, todos tinham cumprido a sua obrigação para com os seis mil habitantes do lugar. Vamos ao discurso humilde de António Henriques: Eu fui apenas o mote que o espírito bairrista dos homens da minha terra veio aqui glosar. E só porque eu sentia que assim era que a aceitei. Para António Henriques, como para quem o seguia, era este o segredo: Tudo por S. João da Madeira, nada contra S. João da Madeira. Nem todos queriam andar carregados de pacotes, bastava comprar alguns cadernos de papel almaço, um lápis e sentar-se à mesa a escrever. Os planos do presidente, com cabeça, tronco e pés, eram simples: Contamos seis mil habitantes fixos e trabalham cá dentro, mas vivendo fora do concelho, cerca de mil operários. Estes homens precisam de encontrar aqui, para eles e as suas famílias, habitação confortável, higiénica e barata.
Os vivos precisavam de casas onde morar condignamente, os mortos de há vinte anos esperavam a solenidade de uma lápide para os recordar. Quase um ano passado da homenagem ao seu presidente da câmara, saindo de um longo sono, os habitantes de S. João da Madeira decidiram homenagear alguns heróis anónimos. Virados para a parede, voltaram a lembrar-se dos conterrâneos mobilizados para a guerra. Dos seus abraços incipientes, dos seus lamentos agudos, dos seus assobios fora de moda. A guerra oferecia um território fértil para a memória. Não querendo falar abertamente, parecia deixar qualquer coisa para dizer. Havia quem se lembrasse de um vizinho a partir para França. Estávamos em janeiro, quase em fevereiro de 1917, e fazia muito frio. O frio era de respeito, dizia-se quase dez graus abaixo de zero, mas faltava pouco tempo para a primavera. Cronistas da época, como João Chagas, dizem que o primeiro embarque dos soldados do CEP foi relativamente ordeiro e tranquilo. Parece que tudo se passou excelentemente. Nas conversas de café, dizia-se que os nossos soldados, imitando Júlio César, tinham passado sem sobressaltos o seu Rubicão. Voltando a João Chagas: Esperava-se que desertasse uma parte, ou que fugisse o resto. Nada disto sucedeu. Tudo embarcou em ordem. Faziam agora vinte anos e havia quem guardasse memórias entaladas na garganta. Quem se lembrasse dos que se portaram menos bem e de Gomes da Costa, cheio de eloquência militar, a fustigá-los. A dar com uma roda de castrados a certos oficiais que já se davam, à partida, por vergonha ou por preguiça, como vencidos.

13 Recomendações
102 visualizações
bookmark icon