Opinião

Passagem da estrada romana por S. João da Madeira - II

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Nos dois mil anos que nos separam da altura em que foi construída, muita água correu debaixo da ponte.

Fechados os parênteses, lancemos um olhar sobre a via militar romana que, vindo de sul, entra no território que hoje é ocupado pelo concelho de S. João da Madeira, no início da Rua de Cucujães. Para trás, ficam algumas certezas mas também muitas dúvidas sobre o verdadeiro traçado da calçada, no troço compreendido entre Æminium (Conímbriga) a Cale (Gaia).
Nos dois mil anos que nos separam da altura em que foi construída, muita água correu debaixo da ponte. Os sistemas viários tiveram de adaptar-se aos condicionalismos históricos de cada momento e a procura de novos percursos, de variantes e travessias melhores e mais seguras, foram uma constante ao longo das épocas.
Entre as antigas informações e as mais avançadas permeiam muitos séculos sem qualquer tipo de documentação, sendo, por isso, difícil encontrar argumentos que permitam conferir maior valor probatório aos estudos até agora realizados.

Ponte da Pica, em Cucujães (DR)

Mas há exceções. Na freguesia de Ul, concelho de Oliveira de Azeméis, onde existiu um povoado pré-romano, descobriram-se, em 1803, duas pedras epigrafadas, durante umas obras realizadas na igreja paroquial, que foram de primordial importância para a definição do itinerário. Uma delas é o marco miliário de Tibério, anunciando a milha XII, que foi trasladado e se encontra atualmente em frente à Igreja Matriz de Oliveira de Azeméis. Estas duas realidades arqueológicas confirmam a passagem da via romana pela freguesia de Ul.
Bem perto de nós, no lugar da Pica, vila de Cucujães, existe uma ponte que, até há bem pouco tempo, era considerada pelo senso comum, mas também por estudiosos, com tendo sido construída pelos romanos. Acontece, porém, que alguns especialistas consideram a sua tipologia mais consentânea com as obras de arte da Idade Média. Seja como for, é inquestionável que a via militar romana contou ali com uma ponte para a travessia do rio. Se ela estava mais a jusante ou mais a montante, é algo que nunca saberemos.
No entanto, não é de excluir a hipótese de que esta estrutura esteja assente sobre os restos de uma ponte romana. É uma circunstância que se repete frequentemente nos grandes eixos de comunicação entre Coimbra e Porto e de que foi melhor exemplo a Ponte Real, sobre o rio Mondego, demolida em 1873 para dar lugar à ponte de Santa Clara, em Coimbra.
Passada a ponte – assinalada ainda no Google Maps como Ponte Romana da Pica –, a via segue por uma ladeira que vai até ao limite do lugar de Faria de Cima, antes de entrar em território hoje ocupado pelo concelho de S. João da Madeira. O trajeto deste pequeno troço é coincidente com o das ruas Via Militar Romana e Dr. Ângelo da Fonseca, da Vila de Cucujães. Já em S. João da Madeira, a via romana continua a subir em direção à Quintã com uma trajetória igual à que é definida pelas ruas de Cucujães, Comendador Rainho e São Francisco Xavier. A partir daí, desce ligeiramente até ao início da Rua João da Silva Correia e continuava, em planalto, pela Rua do Dourado até à Praça Luís Ribeiro.

Marco miliário de Ul, atualmente frente à igreja matriz de Oliveira de Azeméis (DR)

Parece não haver dúvidas que a via romana, na sua passagem por S. João da Madeira, era uma STRATA, ou seja, uma via construída de pedra, segundo a técnica que os romanos aprenderam dos cartagineses. O historiador César Cantu descreve assim as estradas romanas: As maiores tinham cinco metros de largura; começava-se por traçar dois regos que indicavam a largura da estrada; depois cavavam o intervalo e feita a escavação, enchiam-na com materiais apropriados, até à altura conveniente; conforme a estrada atravessava planícies, montanhas, ou terrenos de aluvião.
Os materiais apropriados a que se refere César Cantu eram pedaços de pedra e cascalho, dispostos em três camadas sobre as quais eram colocados calhaus de pedras chatas, cortadas em polígonos irregulares ou em esquadria, para formarem a camada superior, designada sumum dorsum−summa crusta. Às vezes, em lugar da quarta camada, havia uma mistura de seixos miúdos e cal.
O que atrás foi dito, poderá ajudar-nos a perceber que tipo de strata tivemos aqui. Note-se que o topónimo strata (estrada) é referido na primeira notícia documental sobre S. João da Madeira, datada de 1088 – quomodo conclude per illa strata de iusta illa ecclesia de sancti ioanni (tal como confronta com a estrada junto da igreja de S. João) –, numa clara referência à via romana e chegou aos nossos dias sob a forma atual de estrada: Francisco José Luís Ribeiro nasceu na casa da Estrada, em 17-3-1884.

(Continua)

 

 

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