Opinião

Hortalices - Das virtudes da horta

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Há quem diga que não tem jeito para hortas. Todos nós não temos jeito para alguma coisa. Uns não têm jeito para línguas, outros são uma nódoa a pintar, outros, mal tocam num volante, há chapeiro pela certa, e por aí fora. Mas não podemos pensar assim.
Uma horta é a coisa mais simples do mundo. A agricultura está entre as primeiras atividades humanas. Antes de ser inventada a agricultura, os homens tinham que colher e caçar, limitando-se a comer o que a natureza dava. Há cerca de dez mil anos, descobriram que, com a agricultura, podiam escolher e melhorar os produtos de que mais gostavam. E foi uma festa. Transformaram-se todos em hortelãos, apesar de alguns insistirem em dedicar-se a atividades menos pacíficas, como a caça, a pesca e a guerra.
Uma horta é um pedaço de terra cultivada, onde semeamos e plantamos os vegetais que queremos produzir. Mas, sendo simples, uma horta é um espaço mais complexo do que parece. Mesmo quando a horta está toda cultivada, há sempre uma erva para arrancar, um canteiro para rematar, umas couves para regar, umas alfaces para desbastar. E pode haver, também, um naco de conversa com o vizinho hortelão ou com o passante que nos diz “bom dia”. Se dizem que a ociosidade, ou a preguiça, é a mãe de todos os vícios, então a horta é o antídoto perfeito. Como dizia o meu pai, numa horta há sempre que fazer.
Por isso, não hesite: elimine o tempo em que não tem nada para fazer, reduza as horas de ginásio e de esplanada, esqueça a televisão e o computador, dirija-se à Câmara Municipal e peça que lhe atribuam uma das hortas abandonadas junto à linha do Vouguinha, ou sugira que criem mais hortas nalgum dos terrenos incultos que por aí existem. E peça também para lhe oferecerem um camião de terra boa, daquela que alimenta as rotundas. Já Cristo dizia, na Parábola do Semeador, falando das sementes que caíram “no meio de pedras, onde havia pouca terra. Essas sementes brotaram depressa pois a terra não era funda, mas, quando o sol apareceu, elas secaram, pois não tinham raízes. (Mateus, 13)”.

Jesus não era hortelão, mas sabia da matéria.

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