Opinião

Que venham mais cem anos d’“O Regional” com edições em papel

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“O Regional” continua a ser um dos jornais mais antigos do país, apostando por marcar a diferença na região e na cidade onde nasceu. A sua participação ativa na vida local e da região tem sido, em meu entender, muito positiva, consolidando padrões de conduta jornalística que, independentemente de um ou outro erro, revelam sempre uma constante fidelidade à notícia e o compromisso para com o leitor.
Comecei a trabalhar neste semanário há cerca de 25 anos. Ao longo deste quarto de século, acompanhei o evoluir desta cidade em várias vertentes, mas só me apercebi da real importância do jornal quando, a determinada altura, solicitei uma informação a uma entidade externa e essa me disse que o melhor arquivo da cidade estava precisamente nas páginas d’“O Regional”. E, na verdade, de facto, foi lá que encontrei tudo o que procurava.
Nestes anos, vi empresas nascerem e outras mandarem para o desemprego centenas de trabalhadores. Perdi a conta às entrevistas que fiz. Mas uma situação marcou-me para a vida: o assassinato da Irmã Tona, em setembro de 2019, dois dias depois de a ter entrevistado para o jornal. A morte do Hélder Neves apanhou-nos de surpresa. Escrever e acompanhar todo o seu processo nos tribunais foi desgastante e doloroso para toda esta equipa. O mesmo aconteceu com a partida do Augusto Lopes.

“A pandemia colocou-nos à prova”

A pandemia de covid-19 interrompeu o modo de vida que conhecíamos e remeteu meio mundo para o teletrabalho – incluindo os jornalistas. Foi um desafio para toda a equipa que assegurou à distância a continuidade das notícias do concelho.
Quero ainda destacar o prazer que senti ao realizar a “Conversa a Dois” que todas as semanas trazia uma personalidade do cinema, teatro, música, (…) às páginas de ‘ O Regional’. Uma rubrica que ao fim de sete anos a administração decidiu terminar.
Nestes 25 anos dei a conhecer aos leitores, através de notícias e reportagens, muitas histórias de vida de personalidades com histórias nunca antes contadas de S. João da Madeira, desde os que contribuíram para o seu progresso aos que pediam ajuda para comer ou viviam na rua.
Conheci vários presidentes de Câmara e da Junta de Freguesia. Entrevistei-os a todos. Escrevi sobre projetos municipais que acabaram por morrer na praia, sobre outros que se concretizaram e tornaram a cidade uma referência nacional e até internacional. Descobri também que nem todas as reportagens agradaram aos seus entrevistados quando se depararam com o seu conteúdo franco e factual, e até isso me permitiu conhecer melhor S. João da Madeira e, principalmente, as pessoas que aqui vivem.
Destes 25 anos é ainda importante e fundamental destacar e salientar a importância dos jornalistas que comigo trabalharam, e reconhecer a importância que todos tiveram no meu dia-a-dia profissional. A mesma importância têm os colegas que ainda hoje estão neste semanário. Agradeço-lhes pela partilha e pelo acompanhamento.
Têm sido anos de muitas emoções, numa cidade que nem sempre reconhece o esforço do jornalismo local – de uma profissão a que dedicamos uma vida inteira sem nunca alcançarmos uma plena estabilidade, uma vez que a exigência de aprendizagem e de adaptação a novos recursos técnicos e laborais é contínua.
Devo também salientar que todos os que lutam de forma desinteressada pelo desenvolvimento da sua região recorrem à imprensa regional para se inteirarem dos acontecimentos da sua comunidade e daquilo que a faz vibrar. Este é - e sempre será - o grande papel da imprensa regional: informar e promover a cultura cívica. Porque são as páginas livres e independentes do jornal que asseguram a pluralidade de opiniões, a informação isenta e precisa, a crítica consciente e contributiva - valores que nos orgulham de trabalhar aqui e nos quais os leitores se reveem.
Apesar das dificuldades que muitos meios de comunicação atravessam, a imprensa regional tem, como se sabe, dado um contributo decisivo na promoção da coesão regional e estimulado a descentralização, o que é essencial para o desenvolvimento harmónico do país. A imprensa regional é igualmente um dos fatores mais regulares e sólidos de ligação às nossas comunidades emigrantes espalhadas pelo mundo, o que se reflete no elevado número de assinantes que o jornal reúne nos quatro cantos do mundo.
Ler ‘O Regional’ é um dos hábitos mais enraizados em vários espaços de S. João da Madeira, pelo que, são raras as casas comerciais, e espaços públicos que não disponibilizavam aos clientes semanalmente este jornal para consulta. Numa altura em que muitos jornais ponderam abandonar versão em papel, devido ao aumento dos custos do papel – continuo a defender a importância da edição em papel.
Parabéns a ’O Regional’ pelos seus 100 anos. Venha daí mais um século a contar e a escrever a História da cidade, nas páginas de papel.

Jornalista

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