Sociedade

“Escrever este livro sobre a história d’O Regional foi a oportunidade para pôr em dia a história desta terra”

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É provavelmente uma das pessoas que melhor conhece a história de S. João da Madeira. Daniel Neto dedicou dois anos a consultar cerca de 3.000 jornais, para selecionar as notícias mais relevantes e encontrar as imagens que mais se destacaram

Jornal O Jornal - ‘O Regional’ existe há 100 anos. Foi desafiado em 2020, pela direção deste semanário, a escrever um livro relativo à sua história. O que o fez aceitar este convite?
Daniel Neto – Foi um convite que não podia recusar. Em primeiro lugar, porque sou uma pessoa que gosta de enfrentar novos desafios e, depois, porque a história de S. João da Madeira é uma das minhas grandes paixões. Ao aceitar escrever este livro sobre a história d’O Regional, foi a oportunidade para pôr em dia a história desta terra, porque não se pode falar de uma sem falar da outra.

O que considerou uma mais-valia neste projeto e o que encarou como dificuldades?
A mais-valia foi a oportunidade que o projeto me deu de enriquecer o meu conhecimento sobre a história da cidade, das pessoas que contribuíram para o seu desenvolvimento, daquilo que as uniu e, também, daquilo que as separou. As dificuldades com que me deparei tinham sido previamente calculadas. Desde logo, o tempo para a realização do trabalho. Dois anos em que foi preciso ler mais de 3.000 jornais, selecionar o que neles há de mais relevante, encontrar as imagens certas para ilustrar as quatro páginas destinadas a cada ano, não foi o tempo ideal. No entanto, todas as dificuldades foram ultrapassadas, por mérito também do apoio que me foi dado pela Administração do jornal, dos profissionais que nele trabalham e, muito especialmente, do seu atual diretor, José da Silva Pinho.

Ao definir os conteúdos da obra, que descreve como “um livro de consulta histórica”, que critérios definiu como prioritários?
Sim, podemos dizer que a obra é um livro de consulta da história d’O Regional e também de uma boa parte da história de S. João da Madeira, já que, como é dito na nota introdutória, o que é anterior a 1922 está registado no efémero “Defesa Local” e nos jornais dos concelhos vizinhos, designadamente “Correio da Feira” e “A Opinião”. Na conceção do livro, houve a preocupação de tornar fácil a consulta dos acontecimentos mais marcantes de cada ano e as fotografias que os ilustram também ajudam na pesquisa.

Vai dedicar duas páginas a cada ano de existência do jornal. Como fez a seleção dos artigos mais relevantes para representar cada um desses anos?
Inicialmente eram, de facto, duas páginas para cada ano. E fazia todo o sentido, porque o jornal era quinzenário, com apenas quatro páginas, uma delas de publicidade, e a fotografia era coisa rara. As edições de aniversário e, a partir de 1926, das comemorações da Emancipação Concelhia, eram exceção à regra. No período que se seguiu à conquista da nossa autonomia administrativa, passou a haver muito mais assunto, a presença da imagem passou a ser mais frequente e as duas páginas destinadas a cada ano revelaram-se manifestamente insuficientes. Optámos por duplicar esse número. Quanto à seleção dos artigos, obedeceu aos critérios que eu defini, em função do conhecimento que tenho da história da cidade. Obviamente que, tratando-se de uma escolha pessoal, ela será sempre discutível. Se pedissem a dez pessoas para fazerem o resumo de um ano de publicação, de certeza que os trabalhos seriam todos diferentes uns dos outros.

Este projeto editorial prevê que cada um dos artigos selecionados como mais representativos do seu período histórico seja reescrito por si num novo estilo jornalístico.
Não necessariamente. Há muitos artigos no livro que foram transcritos sem alterações. Aparecem em itálico, com a grafia da época em que foram escritos e publicados. Noutras situações os artigos foram reescritos, pela necessidade de sintetizar o seu conteúdo.

E em termos de design gráfico, o que preparou para o livro?
Desde o momento em que aceitei escrever o livro, entendi que a melhor forma de o fazer seria de apresentar o resumo de cada ano como se fosse uma notícia jornalística, isto é, com um título, um parágrafo guia e o corpo da notícia. Paralelamente, haveria duas ou três caixas com destaques, encimados pela data de publicação. Esta ideia foi transmitida ao profissional que trabalhou na criação gráfica do Livro, o designer António Loureiro, e ele respeitou a ideia, o que me apraz registar.

O jornal foi fundado em 1922 pelo “Grupo Patriótico Sanjoanense”. Nos primeiros anos da sua existência, quem eram esses patriotas e o que escreviam sobre a terra?
Os fundadores d’O Regional e o Grupo Patriótico Sanjoanense (GPS) são duas coisas diferentes. Aliás, o GPS foi fundado em abril de 1923, um ano depois do surgimento do jornal. É verdade que o primeiro diretor do jornal era um dos doze elementos que compunham o grupo, liderado por António Henriques. Eram diferentes mas tinham todos em comum o grande amor a S. João da Madeira e a vontade de se libertarem do jugo imposto pela sede do concelho, Oliveira de Azeméis.

Com a dinâmica dessas pessoas, “O Regional” acabou por ter um papel decisivo na emancipação concelhia de S. João da Madeira, alcançada em 1926. O que descobriu nas suas pesquisas sobre a participação do jornal nesse processo de autonomia?
Sem dúvida. O Grupo Patriótico Sanjoanense era composto, como disse, por doze elementos que reuniam ao dia doze de cada mês, no Central Hotel. Chamavam-lhe, por isso, o “grupo dos 12 apóstolos”. As conversas dessas reuniões giravam sempre em torno dos problemas que afligiam os sanjoanenses e das injustiças praticadas por quem tinha o poder de decisão no concelho a que pertencia S. João da Madeira. O Regional teve um papel crucial na divulgação das tomadas de posição do grupo e, a curto prazo, tornou-se o porta-voz dos seus anseios que eram os mesmos de todos os sanjoanenses. Veja-se, por exemplo, a primeira página do suplemento ao número 55 d’O Regional, com data de 3 de fevereiro de 1924, que denunciava a tentativa de dotar Oliveira de Azeméis com luz elétrica, à custa do concelho. Aquele título “ACUDAM!!! ACUDAM!!!”, com letras gordas, foi uma espécie de “grito do Ipiranga” que se foi repetindo nas páginas do jornal, até 11 de outubro de 1926, altura em que S. João da Madeira conseguiu a sua autonomia administrativa.

“A publicidade teve sempre um papel muito importante na viabilidade do jornal”

Já nessa altura a publicidade tinha um papel importante na viabilidade financeira do jornal. Como é que essa componente foi tratada nos 100 anos do jornal e que espaço lhe foi dedicado no livro?
A publicidade teve sempre um papel muito importante na viabilidade do jornal. Não só da d’O Regional mas de todos, em geral. No entanto, o tema publicidade não mereceu nenhum capítulo em especial no livro, ao contrário do que estava previsto inicialmente. Contas bem feitas, a história propriamente dita ocupa 400 páginas, às quais se teve de somar aquelas que foram destinadas à dedicatória, ao prefácio, às notas introdutórias, à publicação da coleção de postais de 1929, ao capítulo da censura, índice, etc. Digamos que o tema é abordado, pela rama, ao longo da narrativa histórica, como foram abordados os temas movimento demográfico e necrologia, por exemplo.

João da Silva Correia, António Lima Correia e Serafim Leite foram três colaboradores que se destacaram, nos primeiros anos de existência deste semanário. Sobre que temas escreviam na altura?
João da Silva Correia e António Lima Correia eram dois dos fundadores d’O Regional e os mais habilitados para produzirem os textos que alimentavam as páginas do jornal. Os artigos de fundo eram, seguramente, da autoria do primeiro diretor do então quinzenário, António Lima Correia, que assinava com o pseudónimo “António Gil” os poemas que produzia e publicava no jornal, com regularidade.
O estilo de João da Silva Correia está presente em muitos artigos dos primeiros anos d’O Regional. Assinava a rubrica “Arco-Íris” e iniciou a sua carreira de escritor no jornal, ao publicar, em 1927, o folhetim intitulado “A Guerrilha de Fundões”.
Serafim Leite só começa a colaborar com O Regional em 1924, numa altura em que se encontrava na Bélgica, a concluir o doutoramento. Apesar disso, era muito interventivo, assinando artigos de opinião, outros sobre história de S. João da Madeira e poemas que apareceram, alguns anos mais tarde, publicados no livro “Trajectórias”.

Ainda hoje muitos sanjoanenses falam dos famosos postais comemorativos que o jornal lançou por altura da emancipação concelhia, com imagens do fotógrafo Domingos Alvão. Que critério adotou para escolher os que dá a conhecer no livro?
A coleção de postais sobre S. João da Madeira, da autoria do fotógrafo Domingos Alvão, editada em 1929 pel’O Regional, fica a dever-se à “benemerência” do editor do jornal, Manuel Luís Leite Júnior. Foi ele que custeou a edição dos postais. Naquela época, poucas localidades do País podiam dar-se ao luxo de ter uma obra de tamanha qualidade e, ainda por cima, assinada por um dos maiores fotógrafos portugueses de sempre.
A coleção é composta por 22 postais, dois deles panorâmicos. Foi-me cedida pelo médico sanjoanense Joaquim Pinho e foi ele que me sugeriu a sua reedição, na altura em que ‘O Regional’ comemorasse 100 anos de existência. Ainda eu estava longe de saber que ia ser convidado para escrever esta obra. Então, decidimos publicar a coleção completa dos postais nas páginas do livro e, na minha opinião, foi uma decisão acertada.

“Muitos dos colaboradores da Rádio Regional Sanjoanense passaram a ser também colaboradores do jornal”

Com a chegada da Rádio Regional Sanjoanense, em 1996, o jornal ganhou uma nova dimensão. Ficou com mais colaboradores e aumentou a tiragem. Como é que isso se refletiu no seu processo de pesquisa para o livro?
Confesso que não estava preparado. Muitos dos colaboradores da Rádio Regional Sanjoanense passaram a ser também colaboradores do jornal e, por isso, houve um aumento significativo do número de páginas por edição, o que tornou a pesquisa mais demorada. Só isso.

De que forma os jornalistas e colaboradores são retratados neste livro?
Os jornalistas e os colaboradores são retratados em função da qualidade que imprimiram ao jornal e do tempo que a ele estiveram ligados.

Que aspetos considera mais interessantes na história do jornal, agora que conhece melhor toda a produção dos seus 100 anos?
A descoberta da personalidade de alguns dos colaboradores que marcaram vida d’O Regional, como é o caso de Belmiro António da Silva, e a clarificação de alguns momentos da história da cidade foram os aspetos que considero mais interessantes no trabalho de pesquisa que realizei.

O que acha que o livro acrescentará à cultura do público mais jovem, que cresceu no contexto dos média digitais?
Julgo que acrescenta muito, pois a história de S, João da Madeira está condensada nas suas páginas. Quando os jovens das nossas escolas, por curiosidade ou porque tenham sido solicitados para realizar trabalhos sobre a história da cidade, encontrarão neste livro uma boa ferramenta de trabalho, com a particularidade de lhes proporcionar uma consulta fácil e cómoda.

Dada a sua carreira como professor, como gostaria que fosse abordado nas escolas locais o livro e a história que ele reflete?
Não tenho dúvidas que a nossa Câmara se encarregará de disponibilizar exemplares para que as escolas tenham o livro nas respetivas bibliotecas. Feito isso, caberá aos professores, de acordo com as exigências de cada disciplina, procederem à sua divulgação.

Como descreveria 100 anos de história de “O Regional” numa única frase?
Um mergulho no passado para melhor perspetivar o futuro.

E que frase gostaria que lhe servisse de lema para os próximos 100 anos?
A mesma que sempre orientou os fundadores d’O Regional: “Tudo por S. João da Madeira!”

 

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