Opinião

Passagem da estrada romana por S. João da Madeira - I

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Sobre a passagem de estrada romana no nosso concelho, já foram tecidas algumas (poucas) considerações por aqueles que se debruçaram sobre a as origens de S. João da Madeira, designadamente Serafim Leite e Aguiar Cardoso, com base em documentos, publicados no seu original em Portugaliae Monumenta Historica, Vol. 5, Diplomata Chartae.
A Monografia de S. João da Madeira, editada em 1944 por Mário Resende Martins, José Fernando Teixeira e Manuel Dias da Silva, no capítulo Primeiros Documentos, não dedica mais do que um pequeno parágrafo ao assunto:
De interêsse, ainda, cita-se nesses documentos a existência de uma estrada romana e de outra mourisca. A primeira não é senão a via romana de Æminium a Cale.
Por seu lado, Maurício Antonino Fernandes, em S. João da Madeira – Cidade do Trabalho, obra que a Câmara Municipal editou em 1996, refere-se, de forma mais alargada, à estrada romana na sua passagem pelo concelho:
Outro factor geográfico de particular importância para a formação e desenvolvimento da terra foi, sem dúvida, a passagem da Via Militar Romana por aqui. Há mesmo que ver nesta primeira grande via de ligação da Península a Roma, a feição típica do aglomerado humano sanjoanense, organizado ao longo dela, e o intenso aproveitamento agrário e florestal de toda a área envolvente, onde cresceram, além de vila rústica principal, outras em redor, como a de Casaldelo, de Fundões, da Várzea, etc. E, além deste aproveitamento das potencialidades da terra, trouxe-lhe a facilidade de sair do isolamento, de se abrir para a civilização, para o mundo do trato social, do negócio e do progresso; e, portanto, força para a sua ulterior autonomia. E foi tal a sua implantação que, de velha Via Romana, passou a Estrada Mourisca e Coimbrã, desta a Estrada Real, Estrada Nacional nº1, com trajeto pelo centro da cidade, hoje desviado para o IC2.

Troço da estrada romana das Airas (Santa Maria da Feira), em tudo igual ao que atravessava S. João da Madeira, de uma ponta à outra (DR)

Na mesma página, em notas de rodapé, Maurício Fernandes cita Jorge Alarcão, autor de Portugal Romano (1983), e Miguel Elísio de Castro, que, entre outros trabalhos, assina o artigo Centro da Vila foi atravessado pela estrada romana, publicado num suplemento do jornal Correio de Azeméis dedicado a S. João da Madeira, em março de 1983.
Esta colaboração especial do historiador oliveirense teve como objetivo primeiro descrever o traçado da estrada romana que, (…) com cerca de 2000 anos, vinha orientada do sul, pelo traçado que segue a via que vindo de Faria de Baixo e Faria de Cima da freguesia de Cucujães, atravessava de ponta a ponta a vila de S. João da Madeira (…).
O estudo que Miguel Castro efetuou é, salvo melhor opinião, o primeiro que define o trajeto da estrada dentro do nosso concelho. No que concerne ao troço compreendido entre o início da atual Rua de Cucujães, até ao antigo lugar do Calvário, no alto da Rua de Santo António, esse estudo merece a nossa total concordância. A partir daí até ao limite do concelho, a norte, a nossa opinião diverge da que o historiador apresentou no referido artigo.
Abrimos aqui parênteses, para apresentarmos os argumentos que nos levam a pensar que o traçado correto da estrada romana no troço compreendido entre o Calvário e a Mamoinha, o ponto mais alto do concelho situado no seu extremo norte, é outro que não aquele.
Antes da chegada dos romanos à Península Ibérica, não existiam estradas propriamente ditas. Havia apenas caminhos que ligavam os núcleos populacionais ou permitiam aos seus habitantes – que por natureza não viajavam – conduzir o gado às pastagens. Com a invasão romana, tudo mudou. O Império preocupou-se em construir uma extensa rede de estradas, as conhecidas calçadas romanas, que permitiam, numa primeira fase, a deslocação rápida das legiões militares de um extremo ao outro do império, a uma velocidade extraordinária para a época, e, numa segunda fase, depois de pacificados os territórios conquistados, a sua utilização para trânsito de pessoas e mercadorias.
A construção das estradas na Lusitânia começou em meados do último século antes de Cristo, por iniciativa do imperador Júlio César, tomou largo incremento com Augusto e os imperadores que se lhes seguiram contribuíram para a conservação, melhoramento e expansão da rede viária nesta região ocidental da Península Ibérica.
A estrada romana que atravessava S. João da Madeira era a Via XVI do itinerário Antonino, que ligava a cidade de Olisipo (Lisboa) a Bracara Augusta (Braga).
Ela é constituída por vários sublanços, sendo aquele que ligava Æminium (Conímbriga) a Cale (Gaia), o percurso que interessa a este estudo. Tratando-se de uma via com objetivos militares, numa região em que a conquista romana enfrentou forte resistência por parte dos lusitanos, as técnicas de construção da estrada privilegiaram a defesa da integridade das tropas romanas. Esta evidência, que consiste em definir o traçado da via em planalto, evitando, assim, os vales e as linhas de água, está presente ao longo de toda a Via XVI e a sua passagem por aqui não fugiu à regra. Para além disso, os técnicos romanos respeitavam rigorosamente aquilo que era considerado um aspeto vital: a pendura longitudinal. Uma excessiva pendente, acima dos 8%, para além de incómoda, afigurava-se desastrosa para veículos de tração animal e respetivas cargas.

(Continua)

 

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