Opinião

Falar Verdade

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Aos olhos de muitos, habilidade deixou de ser uma virtude e passou a ser um novo defeito.

1. O caso das pensões de reforma voltou a colocar na discussão pública a questão de falar ou não falar verdade aos portugueses. Tudo isto porque, no recente plano social apresentado, o Governo fez um truque, logo denunciado por jornalistas e economistas: realçou a pensão antecipada que vai haver este ano; recordou a pensão que vai ser paga em 2023; mas omitiu que este desdobramento de pensões leva a que em 2024 os pensionistas tenham aumentos mais baixos do que a lei prevê. O Governo falou da verdade que lhe dava jeito, mas escondeu a verdade inconveniente. Omitiu que os pensionistas terão, em 2024, cortes relativamente às expectativas que tinham e aos direitos que a lei lhes conferia.
Deliberadamente, o Governo escondeu e omitiu. Não explicou as consequências desta decisão para os aumentos de 2024. Tentou fazer, à socapa, uma mudança na lei das pensões. Gerou a percepção de que está a dar com uma mão o que tira com a outra. É a isto que muitos chamam truque, habilidade, um número de ilusionismo. O Governo não só penaliza os pensionistas no futuro, como fez tudo para lhes esconder a verdade.
Este comportamento é, a todos os títulos, errado e censurável. Primeiro, porque nunca compensa governar na base de truques. Rapidamente os media escrutinam e descobrem a “marosca”. Foi o que sucedeu. O truque tem perna curta. Depois, porque dá uma sensação de chico-espertice, o que irrita os portugueses. Foi também o que aconteceu. Os pensionistas sentiram-se traídos e enganados. E, sobretudo, é uma atitude censurável. Falar verdade é uma exigência de carácter, um imperativo de respeito pelos outros, um factor de credibilização da política. As pessoas aceitam mais facilmente a verdade, mesmo quando ela é desagradável, que a mentira, o truque ou a ilusão. É tempo de os políticos deixarem de menorizar os portugueses!
2. É um facto notório que as “virtudes” que ajudam a levar os líderes ao Governo são as mesmas que normalmente se viram contra eles no fim do ciclo governativo. Cavaco Silva foi, durante anos, entusiasticamente apoiado como Chefe de Governo por ser o homem da autoridade. No final, o país passou a achar que autoridade era autoritarismo e quis mudar para a política do diálogo. Foi assim que António Guterres chegou ao poder. Como o homem do diálogo. Alguns anos volvidos, porém, o diálogo “matou” politicamente o então Primeiro-Ministro. Diálogo, aos olhos das pessoas, passou a significar incapacidade para tomar decisões. O mesmo está agora a suceder com António Costa. No início, era o político habilidoso e essa qualificação só merecia elogios. Agora, a habilidade está a virar-se contra ele. Aos olhos de muitos, habilidade deixou de ser uma virtude e passou a ser um novo defeito. Passou a ser sinonimo de truque, de falta de coragem, desejo de fugir à verdade, incapacidade para agir e falar com verdade. Se eu fosse conselheiro de António Costa, não deixaria de o prevenir para o risco. Mais tarde, pode ser tarde de mais.

 

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