Opinião

A fonte do André ou de Santo André

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Independentemente do nome que lhe deram, a água que jorrava da fonte era, de facto, de excelente qualidade e havia quem lhe atribuísse propriedades terapêuticas

Fonte do André. É assim que a ela se refere a primeira Monografia de S. João da Madeira, editada em 1944, no capítulo dedicado à hidrografia do concelho. Perante a inexistência, à época, de uma rede de abastecimento de água aos habitantes da vila – situação que os autores da obra garantiam estar em vias de ser resolvida – (…) para serventia, a população utiliza várias fontes, algumas delas de água puríssima e fresca, principalmente a Fonte do André (…).
Feita desta forma, a referência deve ter tido como base a tradição oral e, sem haver registo escrito, a origem do nome perdeu-se nas brumas do tempo. Acontece porém que, a partir de dada altura, a fonte começa a ser designada por Fonte de Santo André. O nome comum deu lugar ao nome de um dos doze apóstolos de Jesus Cristo, sem que ninguém saiba porquê. Por seu lado, os poetas locais chamavam-lhe Fonte dos Amores, naturalmente influenciados pela amenidade e frescura do local e embalados pelo rodar cadenciado e monótono de uma azenha que lhe fica fronteiriça, na margem oposta do rio, como referem os autores da Monografia.

O moinho do Janota, o rio e a ponte de madeira. A Fonte do André ficava do lado direito, alguns metros acima do sítio onde se encontra a senhora sentada. (Foto de Domingos Alvão, 1929)

Independentemente do nome que lhe deram, a água que jorrava da fonte era, de facto, de excelente qualidade e havia quem lhe atribuísse propriedades terapêuticas, motivos suficientes para se ter tornado conhecida por todos os sanjoanenses e por muitas pessoas dos concelhos vizinhos, que a ela se vinham abastecer.
Para além disso, o cenário que a circundava era de um bucolismo raro dentro de S. João da Madeira. Lugar aprazível e reconfortante, tornou-se uma espécie de refúgio para aqueles que buscavam a paz e o sossego que o desenvolvimento da vila lhes ia negando, dia após dia. Deve ter sido essa a razão da nossa primeira ida à Fonte do André. Um passeio com a família, numa tarde de domingo do verão de 1956. Apesar da distância temporal, a impressão recolhida deixou-nos marcas indeléveis na memória e a vontade indómita de lá voltar.
O nosso desejo concretizou-se alguns anos mais tarde, já não com a família mas sim na companhia de três amigos com quem partilhamos múltiplas aventuras. O sítio tinha sofrido alterações, sendo a mais evidente a construção de um edifício térreo, onde funcionava uma pequena indústria de refrigerantes. Era dali que saíam os famosos pirolitos, bebida gaseificada muito apreciada, não só pelo seu gosto mas também pela forma peculiar da garrafa, inventada por um inglês, chamado Hiram Codd. Tinha uma forma cilíndrica na base, encimada por um gargalo cónico, com um aro de borracha na extremidade superior, que se destinava a fechar hermeticamente a bebida por intermédio de uma bola de vidro. Esta bolinha transformava-se em berlinde, muito apreciado pelos rapazes, quando se partia a garrafa, e era usada depois no jogo da bogalhinha. A fábrica – soubemo-lo mais tarde – era propriedade de Joaquim Pereira Leite, o dono do Restaurante Alameda.

José Moreira Martins (Zé Moleiro), em 1992.

Quanto ao resto, mantinha-se praticamente como era, aquando do passeio familiar. A fonte continuava a debitar água, a ponte de madeira continuava a fazer a ligação entre as duas margens do rio e a azenha, a que se referiam os autores da Monografia, continuava a rodar monotonamente. Era o moinho do Janota que – soubemo-lo mais tarde também – ficava do lado de Vila Chã de S. Roque.
Havia outro moinho ali bem perto, situado na margem direita a montante do rio, dentro de S. João da Madeira, portanto, pertencente a José Moreira Martins, vulgarmente conhecido por Zé Moleiro. Nas imediações do engenho, vislumbramos o burrico que víamos passar no Barroco, carregado com os sacos de farinha que tinham como destino as padarias de Arrifana e de Escapães, que as da vila eram abastecidas pela manhã.

Garrafa de pirolito.

Entre a fábrica de refrigerantes e as proximidades dos bairros económicos da Devesa Velha, havia um mundo por descobrir. Era a pedreira de onde tinha sido extraída a matéria-prima para a construção das casas de brasileiros do início do século XX e de outras de menor dimensão que por aqui se foram erguendo. Por aquela altura, a pedreira já tinha dado o que tinha a dar e, para nós, rapazes sequiosos de aventura, tinha-se transformado no cenário ideal para as nossas brincadeiras de índios e cowboys.
Hoje, pouco ou nada daquilo existe. A fonte secou, a ponte de madeira ruiu, a fábrica dos pirolitos desapareceu e a pedreira foi transformada numa horrorosa lixeira, com graves consequências para o ambiente. Os moinhos do Janota e do Zé Moleiro resistiram à marcha do progresso mas agora com funções bem diferentes das que tinham outrora.
Sinais dos tempos.

 

 

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