Opinião

Convergências

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O projeto Interferências 1.0 orbitou em torno da cidade, pelas suas valências culturais, durante 19 meses, em 5 projetos criativos, terminando em movimento centrípeto, no passado sábado, na Praça Luís Ribeiro.
Para ali foi montada uma emissão de uma rádio.
Uma simples hora.
Recordando-se os sons de outrora do Mário da Eco.
Oportunidade para recolher as histórias dos outros, ouvir várias opiniões sobre o funcionamento do centro e sobretudo, dar sentido ao Programa Cultura para Todos, proporcionando aos participantes a possibilidade de serem as vozes da rádio, falando em direto, apresentando as sucessivas rubricas, num ritmo bom, com música ao vivo e a possibilidade de revisitar todo o projeto, que se iniciou em janeiro de 2021.
Estar sentado na Praça Luís Ribeiro, em frente a um ecrã, que transmitia as imagens do estúdio e ouvindo as consecutivas intervenções, permitiu perceber a diversidade de opiniões sobre o estado a que chegou aquele espaço da cidade e a pouca unanimidade em torno da última intervenção para requalificação do mesmo.
Mais do que procurar razões, o que ali foi demonstrado é uma enorme insatisfação da população pelas intervenções a que o centro cívico foi sujeito nos últimos 40 anos. A Praça mudou e mudou e tornou a mudar, continuando a mudar até aos dias de hoje e perdeu-se o carisma do local, pela não identificação da população com o espaço.
Há vários exemplos de trabalhos de revitalização, requalificação urbana no nosso país, em programas específicos para o efeito, com resultado de agrado generalizado da população, pela manutenção de aspetos identitários, que prevalecem no tempo inalterados, enquanto à sua volta há mudanças, melhorias, que acabam por ser bem assimiladas pela população.
Muito provavelmente a melhor opção para os próximos 40 anos é não mexer no espaço público, esperar que a vegetação cresça e fique frondosa e aguardar pela dinâmica do investimento privado, esperando que traga soluções imobiliárias mais interessantes, promovendo a necessária recuperação demográfica da Praça e com isso, o espaço consiga atingir a vitalidade económica de outrora.
Voltando ao estúdio e à recolha do rol de memórias individuais, captadas para aquele momento, com recordações pessoais de épocas diferentes, com o relato de episódios vividos naquele lugar, de convergência da comunidade. Algumas muito semelhantes às que eu colecionei, quando a Praça tinha trânsito a mais, tinha imensa gente a passear aos fins de semana, ou movimentar-se de e para os transportes coletivos durante a semana. Ou quando mais tarde, ficou sem tráfego e apareceram outros recantos, antes da implantação das esplanadas, mas sempre com o jardim em formato geométrico variável, mas verde e com as árvores de pequeno porte ali plantadas, a receberem a sombra do prédio gigante ali construído e por vezes, a água derramada da chaminé.
Todos os caminhos iam dar à Praça Luís Ribeiro. Por ali estabeleciam-se cauteleiros, ardinas, engraxadores, passavam amola-tesouras de assobio rápido, chegavam varinas de pregão pronto, apareciam padeiras a vender regueifas e como outrora o lugar não tinha outro nome senão o das Vendas, tudo aquilo era normal e aceite.
Outros tempos.
Agora é mais comum o afastamento de todos.
É bom que aconteçam estas Interferências para haver reflexão, para ajudar a recuperar-se o sentido de comunidade e de pertença ao território.
Estão de parabéns os promotores, tendo encontrado uma equipa multifacetada de agentes culturais que soube entender a cidade (surpreendendo-se com o que encontrou) e promover a inclusão, de um modo muito transversal.

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