Rostos sem Máscara

Rostos sem Máscara - 35 - “Sou seguramente o único agricultor na cidade que ainda cultiva mais de uma propriedade”

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Por influência da família, está ligado ao campo desde os 10 anos. Revela que nunca lhe custou acordar cedo para ir trabalhar. João Neves, 82 anos diz que é o “único agricultor “ em S. João da Madeira que tem a seu cargo várias propriedades de cultivo

Há quem sonhe ser jornalista, enfermeiro, professor, médico ou advogado. Mas dificilmente nestes desejos constam a vontade de João Neves, que em julho completa 83 anos, ser agricultor.
Andou na escola até aos 10 anos. “Não nasci para estudar”. Reprovou sem conseguir concluir a 4.ª classe. Acabou o ensino obrigatório já em adulto, pois necessitava da escolaridade para obter a carta de condução.
Foi precisamente com 10 anos que começou a trabalhar nos campos, ao lado do pai, um reconhecido agricultor de S. João da Madeira. “Todos o conheciam como o Joaquim do Vale. Um homem que dedicou toda a sua vida à agricultura”, diz, orgulhoso.
Atualmente, acorda perto das 7h30, mas longe vão os tempos em que às 6 já andava “de volta” dos animais e a tratar das terras. “Nunca me custou acordar cedo e ir trabalhar. Acordávamos sempre antes do galo cantar”, graceja.
Quis o destino que a “mulher da minha vida” fosse oriunda também de uma família de agricultores. “Juntos construímos o nosso cantinho, as nossas terras, a nossa família” sempre com a agricultura como profissão.
“Sou seguramente o único agricultor na cidade que ainda cultiva mais de uma propriedade”. As terras ali à volta também são suas, e fornecem “tudo para consumo da casa da família”. As restantes, “que até já lhe perdi a conta”, são para a produção de milho e alimentos para os animais. “Algumas têm mais de 5 mil metros quadrados”, enfatiza.

“Se me tiram os campos eu morro”

Apesar da idade, João Neves não dispensa a criação de animais nos seus terrenos. Coelhos, porcos, galinhas, para consumo da família. Os cinco bois são para venda, dado que não aprecia a carne. “Quando vejo a carne na balança do matadouro identifico logo os meus animais pela cor da carne. Não se compara com os restantes. Os animais são alimentados como antigamente, com aquilo que as terras produzem. Já tive vacas também”, conta.
Apesar da vida difícil “dos campos”, não a trocava por nada. Um gosto e dedicação que passou aos filhos apesar de terem profissões paralelas. “Ajudam-me imenso. Antes de saírem deixam já os animais com comida, lavram as terras. Até me dizem que eles não são deste tempo, pois esta geração agora não quer sujar as mão”, diz, convicto.
Com a saúde “mais debilitada” da esposa, conta que esta sugeriu-lhe mesmo parar com o cultivo das terras. “Até chorei quando me disse isso. Só lhe disse: Se me tiram os campos eu morro. Muito ou pouco, vou fazendo. Quero-me entreter com os animais. A minha vida está toda aqui”.
A agricultura sempre foi vista, na opinião do senhor João, como uma profissão de poucas escolhas, mas “nem todos” pensam assim. “Podem tirar muitos dividendos. O Governos tem dado apoios. Não posso dizer que não são suficientes. Ajudam”. Uma ajuda que não existia há 70 anos. “Íamos com o carro dos bois buscar água choca para colocar nos terrenos para os adubar. E tínhamos que pagar por isso. Era tudo cavado manualmente, a erva era cortada com a foicinha, e, atualmente, são as maquinas que fazem todo esse serviço”, lembra.
A verdade é que acredita que, a qualquer momento, a situação se pode inverter. “Vamos chegar à altura em que as pessoas até podem ter dinheiro na carteira e não vão ter o que comprar, pois não vai haver. O milho está a um preço que não me recordo de algum dia ter chegado a este preço”, tudo isto porque, atualmente, “não há ninguém que queira semear, desfolhar e tratar”.

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