Opinião

Uma duplicação contraditória

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Na primeira década deste século, quando o país ainda acreditava que era possível ter uma rede de autoestradas, sem custos adicionais para o utilizador, o troço Estarreja – Vila Nova de Gaia da A29 era extremamente procurado nos dois sentidos. O tráfego era de tal ordem, que a confluência com a A1, no nó de Estarreja, era complicada. Havia filas para entrar no sentido Norte- Sul e uma demora inusitada e perigosa, por ocupar parte de uma via, no sentido contrário, para a saída naquele nó. A resposta do concessionário, após análise à imensa procura, não se fez esperar e aumentaram o largo da portagem, com a oferta de mais pórticos. Passado pouco tempo, o executivo governamental apercebia-se que a gestão das SCUTs não era comportável e passou a taxar esse tipo de autoestrada, incluindo a A29. A diferença de preço não justificava o desvio aos automobilistas e o largo portagem passou a ficar sem filas, tanto na saída, como no acesso à A1.
É com base neste exemplo, de desperdício de recursos, que deve ser analisada a proposta de construção de uma nova rotunda no Lugar da Ponte.
Existe uma boa ideia, de ligação da Zona Industrial das Travessas à rotunda de Samil, em plena N227, que permitirá um acesso facilitado a quem pretende deslocar-se de sudeste para aquela zona da cidade, permitindo retirar algum trânsito pesado do interior da cidade. O que é válido no acesso, é igualmente justificável para a saída. Esta opção permitirá escoar veículos para aquela direção e facilitar a vida a quem pretende ir para Devesa-Velha, São Roque e outros destinos, assim como, permitirá a entrada no IC2 seja qual for a direção.
Enquanto esta via de ligação à rotunda de Samil não estiver pronta, será prematuro fazer qualquer análise a outras necessidades. Se após a sua construção, a hora de ponta não for tão problemática na rotunda do Lugar da Ponte, haverá uma relação causa-efeito profícua, sem necessidade de aumentar investimento.
Podendo canalizar-se verbas para uma ligação, no norte de São João da Madeira ao IC2, direta à Zona Industrial das Travessas melhorando a capacidade logística das empresas aí sediadas, sobretudo na receção de matérias primas e de escoamento de produtos fabricados no município. É essencial pensar-se na circulação dos bens e criar acessibilidades facilitadas às principais vias rodoviárias, na ausência de transportes ferroviários apetecíveis.
Por outro lado, esta projeção, de uma nova rotunda para o Lugar da Ponte, envia um sinal contraditório para a redução da emissão de carbono, com metas para 2030.
Facilitar o tráfego interno, é promover o uso de automóvel em pequenas deslocações.
Quando a opção das cidades é encontrar soluções ecológicas de transporte coletivo, São João da Madeira tem que dar passos nesse sentido.
Para atingir o objetivo no final da década, é necessário verificar quais os movimentos dos trabalhadores das zonas industriais, percebendo a dinâmica dos turnos, dos regimes normais, das pausas para refeição e com base nestas deslocações dentro da cidade programar transportes coletivos com horários que cativem os potenciais clientes. Se os preços forem apetecíveis, a adesão poderá ser garantida.
Veja-se a este propósito os preços praticados pelo sistema Andante, na Grande Área Metropolitana do Porto. Quando reduziram o seu preço para os 40 euros atuais, sem limite de viagens, a adesão foi enorme, sobretudo no Metro.
Proporcionalmente, um transporte coletivo elétrico com movimentação entre as zonas industriais e os principais núcleos habitacionais, seria indicativo para um preço ajustado à dimensão da cidade de São João da Madeira, podendo retirar-se cerca de 100 automóveis das zonas industriais, diminuindo não só a emissão de carbono, como reduzindo a pressão do estacionamento nessa parte da cidade. Um dado a ter em conta, antes que qualquer dia surja a ideia de aumentar os lugares para estacionar na Zona das Travessas, uma área urbanisticamente não programada para receber tantos automóveis.
Haverá outros argumentos, uns melhores, certamente, outros provavelmente favoráveis, tudo ponderado, poderá haver um debate interessante, contudo, tal como escrevi, a prudência aconselha que só após a finalização da ligação à rotunda de Samil, é que se poderá observar o seu efeito no trânsito no Lugar da Ponte, reapreciando-se as movimentações automobilísticas naquela área da cidade. Até lá, os argumentos que prevalecem são a necessidade de cumprir as metas da redução da emissão de carbono até 2030, propostas pelo atual presidente da Câmara Municipal de São João da Madeira e a necessidade de tomar medidas eficazes atempadamente.

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