Cultura e Lazer

Jovem sanjoanense apresenta livro nos Paços da Cultura

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Aos 25 anos, a jovem médica sanjoanense Francisca Pinho Rocha publicou uma obra literária, que será apresentada amanhã, dia 6, pelas 19 horas no auditório dos Paços da Cultura.

‘O Regional’: Como surgiu a tua relação com a escrita, que deu origem a esta publicação? 
Francisca Pinho Rocha: Desde muito miúda gostei de escrever. Aos seis anos, comecei o primeiro diário, enquanto estava internada - talvez venha daí a ligação tão próxima que tenho com os dois mundos (escrita e medicina) - dava muitos erros ortográficos, o que se torna muito engraçado de ler agora. Aos 13, comecei a escrever com frequência muito acelerada - a ânsia de encontrar nas palavras refúgio foi o meu calmante durante a adolescência. Era nos papéis que colocava todo o turbilhão de sentimentos e hormonas que nos fazem acelerar durante estes anos loucos. Depois disso, muito naturalmente, percebi que escrever era das coisas mais simples e prazerosas que fazia. Começou a surgir o sonho de escrever um livro. Enquanto estive na faculdade, a minha relação com a comunicação ganhou raízes mais fortes e no último ano, enquanto me preparava para a Prova Nacional de Acesso à Especialidade, percebi que precisava de escrever com método para me obrigar a desligar do estudo e, por isso, desafiei-me a escrever um livro enquanto estudava, durante um ano. Estudei afincadamente durante 14 meses para o exame e nesse período planeei a obra, o que queria projetar nela e concretizei-a: desde os rascunhos, ao manuscrito, até ao contrato com a editora. Foram meses de foco, muita força e muita fé. E foram meses muitos bonitos.

O livro tem poesia, tem prosa... como podemos descrever a obra? Há uma narrativa?
O livro dá voz à personagem principal, Margarida, que gosta de prosa, gosta de poesia, gosta do passado, do presente e do futuro. Todos os espaços temporais são encontrados ao longo dos vários textos, intercalando os vários acontecimentos e dando, muitas vezes, abertura ao leitor para várias interpretações. É, sobretudo, aquilo que lhe vai na alma e nunca contou a ninguém, o que viveu noutros tempos, o que lhe aconteceu no dia em que pegou na caneta e escreveu, o que pensa sobre determinado assunto. Por isso mesmo, a sequência dos textos apresenta uma narrativa, contando uma história que ela está a viver na primeira pessoa. Existe enredo. Exige que se comece a ler pela primeira página e se termine na última.

E em que registos mais gostas de escrever?
Não sei o que é escrever ficção, pura e crua, mas gostava de aprender. Às vezes, dava jeito. A obra está descrita como sendo ficção. No entanto, todos os meus textos têm conteúdo realístico em algum momento. A história da Margarida não é a minha, mas algumas das coisas que ela conta são minhas também. Por isso, aquilo que eu mais gosto de fazer é colocar o que estou a sentir ou vi alguém sentir (a isto se chama de empatia) e usar a voz de outra pessoa, criando personagens. Todas elas têm um bocadinho do meu mapa mundo. E são todas diferentes de mim. Se são ficção? Sim, mas não gosto desse rótulo.

“Escrevo no comboio, no ginásio, na casa de banho, a meio da noite, em qualquer lugar”

Como é o teu processo de criação?
Perguntam-me isto muitas vezes: como é que eu escrevo. Não sei. Sempre escrevi. Para mim, escrever é fácil, natural. Foram pouquíssimas as vezes em que me sentei em frente ao computador com o propósito de escrever. Escrevo no comboio, no ginásio, na casa de banho, a meio da noite, em qualquer lugar. Abro as notas do telemóvel, pego numa folha qualquer, ligo o computador e escrevo freneticamente. Todos os dias escrevo. Um parágrafo, uma frase, dez páginas. Qualquer coisa.

O que te inspira?
Acredito que a inspiração venha dos livros que li, dos filmes que vi, das relações que tive. Mas sinto que, muitas vezes, vem das coisas mais pequenas: uma mulher parada em frente a um autocarro, uma criança a correr no parque, o som do mar. Só é preciso estar atenta, consciente do meu papel no mundo, envolvida naquilo que me rodeia.

Ar­tigo dis­po­nível, em versão in­te­gral, na edição nº 3890 de O Re­gi­onal,
pu­bli­cada em 5 de maio de 2022

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