Rostos sem Máscara

Rostos sem Máscara - 28 - “Sou dos taxistas mais antigos da cidade”

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É reconhecido há longos anos nas ruas de S. João da Madeira. Albino Ferreira, de 78 anos, é dos taxistas mais antigos na cidade e ainda faz questão de ter o carro “sempre a brilhar”. Em 1976, o seu carro já se destacava na Praça Luís Ribeiro.

Conhece as ruas como ninguém. Não há nenhum caminho que o assuste, quer de noite, quer de dia. Albino Ferreira, 78 anos, conta que está a trabalhar desde as oito da manhã, e já tinha feito dois serviços. “Sou dos taxistas mais antigos, se não o mais antigo, no ativo. Esta profissão já teve melhores dias. A pandemia veio travar muitos serviços, e a concorrência também não veio ajudar”, garante.
Escolheu esta profissão porque, como diz o próprio, “eu não sou passarinho de gaiola”. Tentou outros trabalhos, mas, pouco tempo depois, voltou a circular pelas ruas. “Era isto que, na verdade, eu queria fazer”. É um homem bem-disposto, de táxi sempre asseado, pois sente que a imagem é muito importante.
“Sou taxista na Praça desde o ano de 1976, mas já era taxista antes, noutra empresa”. A sua história nesta profissão começa porque o sogro de Albino também era taxista. O seu irmão acabou por ser também. “Disseram-me, na altura, que alguém queria vender uma licença, e eu adquiri. Os carros pagavam 42.500 contos por ano, e os carros de praça, não. Achei que deveria aproveitar a oportunidade”.
Com a licença na mão, fez-se ao caminho, numa altura em que a praça tinha apenas 18 carros. Um dia a seguir ao outro, foi aumentando a sua clientela, com a educação e gosto em comunicar, Albino fazia destas viagens uma vida de satisfação, assume.
Outra das características que o senhor Ferreira tinha era a “paciência”, e a coisa só podia ir andando e funcionar. “Nesta profissão tem de se ser comunicativo e destemido. Falamos com toda a gente, carregávamos desde um juiz até à prostituta e ao ladrão. E o segredo é tratar todos com o mesmo respeito”.
As histórias multiplicam-se ao puxar pela memória que guarda momentos bons a conduzir um táxi e outros nem tanto. Conta que uma vez um indivíduo lhe pediu para o levar a um determinado destino. “Era na altura dos retornados, pediu-me para fazer o melhor preço. Avaliei e disse que teria de pagar cerca de 250 escudos”. Albino começou a desconfiar do cliente, pois “contradizia-se muito”. Não era de fiar. “Começou a ser um pouco mais agressivo com as palavras. Tive de o ameaçar de arma, e deixá-lo pelo caminho, pois não vinha com boas intenções. Mas, a verdade é que nem uma bala eu trazia, embora tivesse muitas noites de trabalho. Afugentei-o. Quis mostrar-lhe que não lhe tinha medo. E assim foi…”, enfatizou.
Com todo conhecimento adquirido nesta vida, que dá voltas e voltas todos os dias, Albino Ferreira diz que não condena a concorrência que a profissão tem conhecido nos últimos anos. “Todos temos que viver. Cada um puxa a brasa à sua sardinha”. Mas, não é por essa razão que se vai dar mal com estes profissionais.
Enquanto não tem clientes, permanece no seu carro, à espera. Lê o jornal, conversa com colegas e tenta sempre ter o táxi a brilhar.

Ar­tigo dis­po­nível, em versão in­te­gral, na edição nº 3888 de O Re­gi­onal,
pu­bli­cada em 21 de abril de 2022

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