Cultura e Lazer

Factos e ficções entram no Museu da Chapelaria

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Decorreu na quinta-feira da semana passada, dia 14, a apresentação do espetáculo teatral ‘O Artista’, original do grupo Sériùs. Trata-se do momento mais descentralizado do Festival de Teatro.

A peça estava preparada para a edição de 2020 do Festival de Teatro, cancelada devido à pandemia. Em 2022, finalmente, ‘O Artista’ estreou-se no espaço do Museu da Chapelaria. Apesar de ser uma ficção, a história recorre a factos. Desde logo, o cenário (fábrica de chapéus) e as condições de trabalhado do operariado.
Depois de na edição anterior (2019), o grupo ter apresentado uma peça a bordo dos transportes urbanos da cidade, agora foi a vez do Museu da Chapelaria receber os espectadores que, quase sem darem conta se transformam em figurantes, já que, por diversas vezes, os atores interagem de forma direta com o público, que se vai movendo no espaço consoante as orientações recebidas.
Dada a tipologia do espetáculo, a lotação das sessões foi limitada a 40 pessoas, tendo as sessões esgotado previamente.
O enredo centra-se num mistério ensanguentado e envolve os mais carismáticos e ficcionais operários da Empresa Industrial da Chapelaria. O próprio fundador da fábrica, António José de Oliveira Júnior, é representado, sendo o responsável por receber um personagem fundamental: o público, que encarnará uma sociedade do Porto, interessada em adquirir a empresa e que “veio para ver de onde vêm os adornos que eles mesmos usam todos os dias na cabeça”.
“Num ambiente chefiado por Oliveira Júnior, o operariado da mais conceituada fábrica de chapelaria sanjoanense dá por si numa trama ensanguentada, justamente no dia em que os visitantes chegam. Sem precedentes e um mistério totalmente inesperado, qual dos chapeleiros vai resolver o caso?”, lê-se na sinopse.
Há ainda espaço para abordar a questão salarial, nomeadamente a disparidade entre homens e mulheres num mesmo trabalho, além de momentos musicais ilustrativos da ação.
O processo de escrita foi coletivo, como refere Diogo Correia, que assina o texto com Rúben X. Lôpo. “Muitos plots, ideias importantes da peça também vieram de outras pessoas”, informa.
Já Carolina Sousa explica que primeiro foi escolhido e sítio e só depois criada a narrativa. “Fomos pegando no conhecimento que há e construindo um guião transversal”, sustenta, remetendo para “histórias reais, como os namoricos no porão”. A leitura da obra ‘Unhas Negras’ foi igualmente inspiradora.
Entre os aspetos reais misturados na ficção assume protagonismo o chapéu do arquiduque Francisco Fernando. “Achamos que tinha de ser um chapéu imponente, vimos fotografias e vimos que o arquiduque quando foi assassinado tinha um chapéu com umas plumas”, explica Carolina.
“Nós queremos repor esta peça num momento oportuno, não queremos ficar só pelo festival de teatro”, acrescenta, esclarecendo que o grupo não tem apenas jovens sanjoanenses, mas também de concelhos vizinhos (Oliveira de Azeméis e Santa Maria da Feira).
Apesar de descreverem todo o processo desta criação como “caótico e extenuante” reconhecem que é “um desafio a interação com o público”. “Quanto à minha personagem, como é austera, posso por o público na linha”, refere Amanda de Sousa.
“Gostamos bastante de teatro de rua e já estamos habituados a improvisar”, diz, lembrando a peça feita no TUS.
Quando começaram o projeto, o Espaço Aberto desafiou-os a usar outros palcos e foi assim que fizeram e gostaram, contam. Além disso, alguns dos atores participam na Viagem Medieval, pelo que estão familiarizados com o formato itinerante e de improviso.
Recorde-se que o grupo Sérius foi fundado em 2018 e integra jovens entre os 20 e 29 anos, provenientes de diversos backgrounds. Estreou-se nos palcos em 2019, com “Ensaio Sobre a Morte”, reposta no mesmo ano e participou nas duas últimas sessões do Festival Poesia à Mesa, com a Poesia nos Restaurantes e Poesia no Autocarro.
Para Cristina Reis, da organização do festival, este grupo é uma “presença muito inovadora”. “Certamente ireis querer crescer e haveis de o fazer. A comunidade de S. João da Madeira pode orgulhar-se dos seus jovens, assim como dos seus mais antigos”, concluiu a professora no final da apresentação feita para a imprensa e convidados.
O Festival de Teatro termina no próximo domingo com a peça “Muitos Milhões”, pelo grupo ‘Troupe’.

 

 

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