Opinião

O monte negro da política portuguesa

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Nada me move contra o militante social-democrata de Espinho. Não me suscita qualquer antipatia, nem retiro particular prazer em escrever este artigo.

Luís Montenegro anunciou-se como candidato a primeiro-ministro de Portugal. Sendo eleito líder do PSD, tal será uma possibilidade. Nada me move contra o militante social-democrata de Espinho. Não me suscita qualquer antipatia, nem retiro particular prazer em escrever este artigo. Faço-o de forma despersonalizada e despartidarizada, como análise ao que representa a sua candidatura para Portugal, para a política portuguesa e para a nossa governação. E o que isso significa em termos da nossa organização em sociedade.
O seu currículo é simples e sem nada que o distinga ou habilite a gerir uma economia de 211 mil milhões de euros, com 10 milhões de habitantes. Dispenso-me a partilhá-lo aqui, mas o essencial resume-se à liderança de um grupo parlamentar durante 6 anos, a par de uma eventual prática parcial de advocacia enquanto foi deputado, desde 2002, quando tinha 29 anos. Sempre defendi que a ação política e partidária merece maior consideração social, devendo ser mais respeitada e valorizada. Mas daí a se achar normal que alguém com tal currículo possa ser primeiro-ministro, vai uma grande diferença.
Seguramente que a responsabilidade por esta possibilidade bizarra não é de Montenegro. Quero ser claro, insistindo neste ponto: o que está em causa não é específico de um ou de outro partido, e a pessoa em causa será mais uma consequência do sistema vigente do que propriamente um ator doloso. Ele jogou o jogo que conta. E as regras desse jogo são ditadas por nós, por aquilo que valorizamos e toleramos. Foi o jogo da construção de uma rede de cumplicidades, mais ou menos transparente, com mais ou menos irmandade, que gerou acessibilidades e simpatias a militantes e dirigentes, ao longo dos anos em que foi dirigente partidário e líder parlamentar.
Não foram as suas realizações pessoais e muito menos os seus dotes oratórios ou uma qualquer visão para o centro-direita.
Ora, os portugueses têm, ao longo dos séculos, manifestado uma predisposição para privilegiar relações e proximidades, em detrimento de valores e méritos. Vale mais ser próximo ou ter uma relação com um Ministro, do que saber daquilo que se fala ou ter provas dadas, na academia e na profissão. Muitas vezes, mascara-se o primeiro aspeto usando gente que tem indícios do segundo – mas é o primeiro aspeto, o das relações prévias, que determina os acessos.
Sei bem que estas palavras não surpreenderão nenhum leitor. O que é surpreendente é que tenhamos desistido de compreender o quão imoral, injusto, iníquo e violento isso é para tantas e tantos portugueses. Insistimos neste modelo que quebra e dobra a espinha dos nossos jovens até deixarem de acreditar que há outros caminhos. Caminhos que se traduziriam em bem mais do que o atual declínio económico, social e demográfico.
Mas é esse nosso arranjo social que explica estarmos na iminência de ter alguém como Montenegro a liderar a oposição e, eventualmente, aspirar à liderança da nossa governação coletiva.
As possibilidades de Montenegro revelam que continuamos um país empobrecido, desqualificado e centralista. É a pobreza e as várias dependências económicas que permitem valorizar relações com quem teve, tem ou terá o poder de distribuir alocações orçamentais e emprego público. É a nossa desqualificação crónica, incluindo dos nossos amigos e familiares, que favorece o exercício e partilha acrítica de simpatias e favores, enquanto se diminui e desvaloriza quem estuda, longa e aturadamente, com provas dadas – empurrando-os para a emigração. É o centralismo (de poder e dinheiro concentrados na capital) que incentiva o dar prioridade às relações com quem “está lá”, em vez de qualquer outro elevador social mais justo e decente.
A cidade no alto da colina é uma expressão bíblica, mas cuja ideia nos inspira desde a Grécia antiga, com a colina do Pártenon. Sempre como um local aspiracional, vísivel e irradiando a luz da justiça e das nossas realizações coletivas. Por mal dos nossos pecados, o principal partido da oposição em Portugal parece querer substituir esse sonho civilizacional por um monte escuro, sem luz, sem esperança e sem superação das nossas fraquezas. Literalmente, um monte negro, do facilitismo, da falta de exigência e do culto da mediocridade. A eleição de Montenegro apenas aprofundaria a nossa crónica resignação. E revelaria que o país, afinal, teria um sério problema de subdesenvolvimento.

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