Opinião

Guerra e Mentira

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Nunca houve uma guerra com uma mentira tão globalizada como esta.

Quando inicia uma guerra, a primeira vítima é a verdade.

As mentiras que a propaganda de guerra promove, foram muito bem sintetizadas, em «dez mandamentos», pela historiadora, investigadora e professora universitária belga Anne Morrelli:

1. Não queremos guerra
2. Só o inimigo deve ser culpado pela guerra.
3. O inimigo é inerentemente mau, semelhante ao diabo.
4. Defendemos uma causa nobre, não o nosso próprio interesse.
5. O inimigo comete atrocidades de propósito; os nossos percalços são involuntários.
6. O inimigo usa armas ilegais.
7. Sofremos pequenas perdas, as do inimigo são enormes.
8. Artistas e intelectuais apoiam nossa causa.
9. Nossa causa é santa, tem um carácter sagrado.
10. Quem duvida da nossa propaganda, é um traidor.

Estes «mandamentos» são inteiramente válidos na guerra da Ucrânia. Nos tempos da «outra senhora» (nome que alguns usam para evitar dizer fascismo) quem criticasse Salazar era chamado de comunista, hoje quem criticar a NATO é «putinista». Isto, apesar do número 2, do artigo 7.º da Constituição da República Portuguesa preconizar, expressamente, «a dissolução dos blocos político-militares».
Nunca houve uma guerra com uma mentira tão globalizada como esta. A comunicação social dominante transmite-a de uma forma tão intensa que leva a pensar que após a Segunda Guerra Mundial, as outras guerras e invasões foram benignas. As notícias repetidas até à exaustão, algumas falsas, outras verdadeiras e muitas não comprovadas, fazem esquecer que na Coreia, no Vietname, no Iraque, e noutros locais houve, incomparavelmente, mais mortes civis e militares, mais bombas e mais destruição, aquelas guerras agora, perante a proximidade e cobertura desta, parecem coisas de pouco significado. A memória de alguns é muito curta!

A mentira serve os beligerantes e também os patrocinadores.
A mentira serve os senhores da guerra e os que não têm escrúpulos para ganhar dinheiro, poder e influência com ela. O fornecimento de armas enriquece quem as vende, contribui para prolongar, aumentar o número de mortos e alargar a destruição.
É urgente parar o fornecimento de armas, deixar de pôr mais lenha para a fogueira. É tempo de a comunidade internacional, inclusive a ONU, deixar de acirrar e se empenhar com vigor nas negociações de paz. É importante, depois de tudo o que a humanidade passou no século XX e neste primeiro 1/5 do século XXI, que o armamento nuclear seja gradualmente desmantelado em todo o planeta e que o armamento convencional seja reduzido.
Está na hora de dar prioridade à paz. A guerra da Ucrânia foi iniciada em 2014 após um golpe de estado, não é de agora, desde o seu início foi de uma crueldade intolerável que nunca devia de ter acontecido. A invasão russa, iniciada em 24/02/2022, é uma violação clara do Direito Internacional e é profundamente reprovável.
Apesar do palco dos conflitos estar a 4.000 Km, há notícias preocupantes que nos tocam. Os «falcões» militaristas, regra geral lobistas da indústria da guerra, pressionam para que os estados gastem mais em exércitos, armamento e instalações de guerra. A NATO está muito empenhada que os estados gastem mais «na defesa». Ficamos perplexos com os «pacifistas» que nos governam e na forma como pretendem responder à Rússia. Relembro e subscrevo as palavras recentes do Papa Francisco: «Senti-me envergonhado quando li que um grupo de países se comprometeu a gastar 2% do PIB com a compra de armas para responder ao que está acontecendo. Loucos!»

A mentira também prejudica os Portugueses.
Desde 2019 que se verifica uma tendência gradual de subida de preços que o rendimento da maioria da população se ressente. Antes da guerra os preços dos combustíveis estavam a subir. Com a guerra e com as sanções à Rússia, os «donos disto tudo» arranjaram a justificação para o aumento brutal dos combustíveis perante a passividade total do Governo. Quem se lixa é o mexilhão! Os combustíveis que hoje foram vendidos foram produzidos há meses, e os seus componentes foram comprados ainda antes, com custos que não justificam os preços de venda de hoje.
O governo mantém uma política sobre o preço dos combustíveis perfeitamente obscena. Por exemplo: uma bilha de gás butano, de 13 Kg, custa em Portugal cerca de 32,00 € (a 2,46 € cada Kg) e em Espanha, uma bilha de 12,5 Kg, custa 18,63 € (1,49 € cada Kg). Pagamos mais 67% em Kg. Esta diferença, no fundamental, não é explicada pelos impostos. Em Espanha e em Portugal o ISP é semelhante no gás butano e o IVA é menos só 2% (23% cá e 21 % lá). A razão principal que motiva esta diferença de preços assenta nas decisões dos governos. Em Espanha o preço da bilha de gás é regulado e em Portugal o preço é deixado ao «mercado livre».
Não podemos ignorar, que o aumento dos combustíveis arrasta consigo uma espiral inflacionista elevando os preços, inclusive os dos bens de primeira necessidade, para valores insuportáveis. Com inflação elevada, e com os salários estagnados haverá ainda mais pobreza no País.
Na actual conjuntura é absolutamente necessário: a redução dos impostos sobre os combustíveis; a imposição de preços máximos em matérias de energia e nos bens essenciais para as famílias e a redução do IVA para 6% no gás e na electricidade.

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