Rostos sem Máscara

Rostos sem Máscara - 23 - “Antigamente era o cliente que escolhia o mecânico que queria”

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É um dos mecânicos mais antigos da oficina, onde trabalha há 40 anos e nunca se arrependeu da escolha que fez aos 14 anos. João Silva é mecânico e o que mais gosta de fazer é reparar uma avaria, e que o cliente fique satisfeito com o seu trabalho.

O sorriso e a paixão com que respondeu às nossas perguntas não deixam dúvidas que estávamos perante alguém que gosta muito daquilo que faz. João Silva, 54 anos, tem, desde adolescente, a paixão por automóveis.
Aos 14 anos, e ainda na escola, decidiu, no período de férias, conciliar a aprendizagem com a mecânica de automóveis na Garagem de Arrifana. E nunca mais de lá saiu. “Faço 40 anos de casa dia dois de agosto”, o que faz de si um dos funcionários mais antigos da empresa. “O meu maior gosto foi, no meu primeiro dia de trabalho, chegar a casa sem lavar as mãos. Era o gozo de mexer em distribuições, transmissões” e de dizer à família “que já trabalhava”, revela.
Apesar de nunca “ter sonhado ser mecânico”, o desenho, as artes, as ferragens eram a sua grande paixão. “Eu na verdade nunca fui muito sonhador e uma pessoa de arriscar”. Quando acabei o serviço militar, ainda pensei o que fazer da vida”. Já que sempre foi um “habilidoso” e fazia um pouco de tudo poderia ter escolhido um “outro caminho”.
E, nessa altura, Armando Amorim, fundador da oficina, foi um dos responsáveis por continuar ligado à mecânica. “Sempre teve uma maneira muito especial de nos convencer a ficar por aqui. Foi sempre uma pessoa muito educada e com bons modos”, enfatiza.
Atualmente, arrepende-se não ter estudado mais. Conciliou os estudos com o trabalho, mas “por culpa minha e muitas vezes por limitações da vida”, diz mesmo que poderia ser hoje engenheiro mecânico.
Teve a sorte de ter ao seu lado, durante cinco anos, “um mestre” que sempre o valorizou e com ele aprendeu quase tudo relativamente a esta profissão. Foi, na verdade, a minha grande escola. O mestre Humberto Leite da Silva foi sempre “uma pessoa muito respeitada e respeitador”, e isso, “reflete-se” muito naquilo que João Silva é atualmente como profissional.
João, especializou-se na área da mecânica e frequentou várias formações. O que mais gosta de fazer é reparar uma avaria. Identificar o problema que o automóvel tem, e pô-lo em condições para que seja entregue ao cliente. Explica também que, ao longo dos anos, a eletrónica tem tido “grandes evoluções”, mas “não basta ligar o computador à viatura” que se descobre de imediato o problema. Para si, a parte mais interessante é descobrir “o mistério” e resolver a anomalia. Mas, quando isso se torna mais difícil, tem a “sorte” de ter por perto colegas que “se aproximam logo. Aqui sempre existiu o espirito de entreajuda”.
Há ferramentas nesta profissão que começam a ficar de lado. “O martelo, o alicate pouco se usam. Por um lado ainda bem”, mas confessa que, muitas vezes, sente saudades de as ter por perto.

Ar­tigo dis­po­nível, em versão in­te­gral, na edição nº 3883 de O Re­gi­onal,
pu­bli­cada em 17 de março de 2022

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