Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

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Ao longo do século XIX, os nossos conterrâneos habituaram-se a partir. Depois de andar pela Lomba e por Mosteirô, o padre António Maria, em surdina, com uma brisa caprichosa, sonhou com Roma e os seus esplendores. Os padres, como é sabido, gostavam de encontrar temas romanos. Por seu lado, o pai da condessa Libânia, José Pinto Leite, com os seus seis irmãos masculinos e os seus inúmeros descendentes, andou pela Baía e pelo Recife, por Londres e Manchester. Libânia nasceria na primeira capital do Brasil antes de, ao casar com o tio Sebastião, fixar residência duradoura no Couto de Cucujães e ali ser sepultada. A família da Gandarinha quase fez as sete partidas do mundo para encontrar a prosperidade e tornar a viagem num passo rotineiro e inevitável. Um dos ramos da família chegou a Angola; ali, com a ajuda do rei D. Luís, fez nascer, no Bailundo, no meio do planalto do Huambo, a fazenda da Gandarinha. Por alguma razão lhe deram aquele nome, com uma pena bem-humorada, saudosa e aduladora. Mais recatado e menos exausto de tanto andar sem deixar descendentes, Luís Ribeiro chegou a Rosário, depois de ter embarcado para o Brasil. Foi ali, na cidade Argentina, que começou a sonhar com um hospital na sua terra natal. Albino e Garcia também atravessaram o Atlântico para chegar ao Rio. Era sempre com orgulho que os conterrâneos de Garcia liam notícias pouco preguiçosas sobre a sua casa de ferragens no número dezanove da general Câmara. Por sua vez, Albino ainda era uma criança quando chegou à barra do Douro; tinha doze anos quando desembarcou no Rio, onde se estabeleceu com um pequeno negócio de víveres. Também ele se viria a revelar um sucesso na arte de enriquecer. Com mais dez anos, depois de ter andado nos Carvalhos, a estudar para padre como António Maria, também Serafim Leite embarcou para o Pará, onde iria trabalhar como caucheiro e aprender a língua dos índios que viviam nas margens do rio Negro.
As viagens no Atlântico tinham muitas peripécias, incluindo histórias com feridos graves e narrativas pretas. Na tormenta de algumas travessias havia quem beliscasse a cara e soltasse meia dúzia de palavrões no dialeto de origem. Os Pinto Leite conheceram, pelo menos, dois naufrágios. Em 1820, com quinze anos de idade, Joaquim Pinto Leite quase morreu na sua primeira viagem ao Brasil. Vamos segui-lo a bordo do Patrocínio. Era o dia 16 de janeiro de 1820. O barco do comandante João Torres de Faria sofreu uma tempestade terrível logo à saída da barra de Leixões. Andou o Patrocínio às voltas três dias, sem grande esperança. Conta o próprio José Pinto Leite as beliscaduras: a muito custo se pôde conseguir navegar uma cábrea na proa, podendo a muito custo tomar a rota do Corcubion, na Galiza, em 23 de do mesmo mês de janeiro. Naquela pequena península da Corunha, junto à ria com o mesmo nome, conhecida pela crueldade e violência do princípio do século, ficou parado o Patrocínio, a reparar os estragos, até ao dia 18 de abril. Tempos difíceis, com lento amanhecer e dias incertos, algazarras e incertezas, até rumar o barco para a Baía sem contratempo. Mas na chegada à barra da Baía o mar voltou a ficar pouco alegre. Representando o seu papel, dois ou três marinheiros soltaram palavras porcas. Ouçamos outra vez José, recordando o dia 24 de junho, com o barco encalhado junto à costa: Logo que o navio tocou em terra, partiu, e ao mesmo tempo toda a mastreação. O vento soprava forte, não foi possível lançar as lanchas para terra.
Uma viagem sem descanso a do Patrocínio. Com brisas caprichosas para ajudar a responder a velhas perguntas. Uma triste conjetura, escreveu José, lembrando a coragem do despenseiro do barco, que se ofereceu para levar a nado uma corda até à costa. A sua valentia nunca estaria fora de moda. Aquela corda salvou toda a tripulação, apesar dos grandes sobressaltos, porque teimando aquele belo nadador em não querer ir amarrado por se fiar em bem saber nadar, em poucos momentos desapareceu, e com ele as nossas esperanças de salvamento. As histórias de naufrágios eram frequentes no Atlântico. O Patrocínio encalhou junto à Baía, mas, com novas cordas e maré cheia, todos os tripulantes tiveram a fortuna de se salvar. No dia 25 foi possível voltar a bordo. Choveu copiosamente durante três dias e três noites. Voltemos ao testemunho de José, que esperava um mar mais sossegado e uma terra mais aprazível, servindo-se de cama a macia areia, e de telhado algumas das velas do navio. Estavam a seis léguas da Baía, para onde, palmilhando aquela areia, seguimos àquela cidade na qual me demorei pouco mais ou menos oito dias; segui a Villa de Santo Amaro, adonde estive até 1822, em cuja ocasião principiou a luta da Independência, e depois o Cerco da Cidade, e recebendo eu ali durante ele diversos maus tratos, em janeiro de 1824.
Não foi este o único naufrágio dos descendentes de Teresa Angélica e de António, a família da Gandarinha. Também Manuel, o penúltimo filho do casal, nascido em 1813, na Gandarinha, se deixou seduzir pelas zonas quentes do outro lado mar e pelas terras divinizadas do Brasil. Manuel era um dos grandes viajantes da família, sempre a correr entre o Brasil e a Europa. Conta um seu bisneto que, um dia, acompanhado da mulher Ana Carlota e da sobrinha Alcina, quando navegava entre Lisboa e o Porto num barco à vela e a motor, com duas chaminés, a embarcação naufragou. Felizmente, não só os passageiros se salvaram como conseguiram recuperar alguns bens, incluindo uma mala onde Manuel guardava documentos, reservados e secretíssimos, deste negociante de grosso trato, com empresas na Baía, em Pernambuco, na Grã-Bretanha, para onde exportava produtos brasileiros e importava tecidos. Tão rico ficou Manuel, não destoando de todos os descendentes de António e de Teresa Angélica, de Maria a Sebastião, que, em meados do século, terá vivido faustosamente em Paris, não muito afastado dos Campos Elísios. As margens do Sena eram, então, por maior que fosse a morrinha turva, o centro do mundo. Mas, ainda que muito sedutora fosse a festa, Manuel voltaria a atravessar o Atlântico. Morreria em Pernambuco em 1876, com sessenta e três anos.
Olhando para o ano da morte de Manuel no norte do Brasil, aconteceram então alguns factos que ajudaram a história do seu país de origem a prosseguir em linha mais ou menos reta. Refira-se, numa primeira instância, o pacto da Granja, assinado a 7 de setembro, onde se reclamou uma nova identidade da esquerda monárquica: o nascimento do Partido Progressista, que fundiu históricos e reformistas, Braamcamp e o bispo de Viseu. Esquerda e direita estavam preparados para rodar ao sabor da boa vontade do rei. Num segundo andamento, para quem não gostava dos Bragança, a melhor notícia veio do Centro Eleitoral Republicano Democrático. Nasceu então, naquele ano de 1876, um novo partido em Lisboa, para dramatizar o libelo acusatório e fragilizar o rei; e para aliviar as divisões entre os que o queriam, agrupando as diversas tendências republicanas, incomodar seriamente a monarquia até ela deixar de ser precisa. Um dos entusiastas do novo partido, Francisco Maria de Sousa Brandão, o engenheiro dos caminhos de ferro nascido na casa da Murtosa, em Mosteirô, fez um breve relato do ato inaugural. Um dia, as sua palavras tornar-se-iam politicamente corretas. Era o dia 25 de março de 1876 e vamos seguir as palavras do futuro general: Realizou-se um jantar, e no seu seio como uma sociedade de amigos e correligionários, fizeram-se os brindes ao triunfo da democracia, à realização da república, a todas as ideias generosas, populares, de igualdade, fraternidade, em uma palavra, ao estabelecimento do sistema republicano em Portugal. A sina podia ainda ser adversa, mas os ritos não seriam em vão.

 

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