Opinião

Mapa de perigos

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A maioria absoluta é a configuração parlamentar que deixa mais vulneráveis os governos à pressão dos interesses financeiros, dos setores rentistas e dos privilegiados da sociedade. Ao mesmo tempo, protege esses governos da pressão das classes desfavorecidas. A explícita comemoração do resultado das eleições de 30 de janeiro por parte de grandes empresários, banqueiros e até agências de notação financeira é uma boa medida dos perigos da nova maioria absoluta.
Além do risco para o bom uso dos dinheiros públicos - que obrigará a uma fiscalização absoluta pela oposição e pela cidadania -, esta maioria apresenta três perigos principais: a privatização dos cuidados de serviços de saúde (através do acelerado desgaste do SNS); a estagnação dos salários (por efeito da precariedade e do despedimento barato que a troika instituiu e o PS mantém); uma transição energética lenta, errada e insustentável (feita à medida dos grandes poderes privados da indústria e da energia; exemplo: subsídio ao carro individual elétrico em vez da massificação dos transportes coletivos e partilhados).

Condicionada, a democracia empobrece
Rigorosas ou manipuladas, sondagens publicadas na ponta final das campanhas condicionam escolhas eleitorais. Nas eleições de janeiro, todas diagnosticaram um empate técnico entre o PS e o PSD, admitindo até uma maioria com os ultra-liberais e a extrema-direita. Esta hipótese, credibilizada pelo próprio Rui Rio, deslocou muitas pessoas para o voto no PS e deu a António Costa a maioria que ele já julgava impossível de obter. Muitas daquelas pessoas teriam optado, entre uma maioria absoluta e mais força ao Bloco ou ao PCP, pela segunda. Se a escolha democrática deve fazer-se entre alternativas claras e não para evitar “resultados” que não o são, então a possibilidade de publicação de sondagens na véspera dos votos deve ser revista.

Como tirar o chão à extrema-direita?
Os resultados do Chega (7%) e da Iniciativa Liberal (5%) confirmam a fragmentação da direita e a sua radicalização (estes resultados somados equivalem ao do CDS em 2011). É uma direita herdeira da troika, que faz do egoísmo uma ideologia e da hostilidade ao Estado social a sua política. No caso do Chega, ela é abertamente racista e machista, na senda de Donald Trump e dos seus correspondentes europeus.
António Costa vê no horror ao Chega um seguro eleitoral para o PS, mas o necessário cordão sanitário em torno de André Ventura não confere, só por si, um selo de esquerda. Pelo contrário: são os impasses da política do PS - nos salários, nos serviços públicos, na habitação - que alimentam o ressentimento social. Um governo de estagnação que se julgue protegido pela rejeição à direita radical alimenta um ciclo perigoso de medo/ressentimento. Só se tira o chão a Ventura com medidas fortes de justiça social. Sem tais medidas, já se viu lá fora: diz-se que “não passarão” enquanto se lhes estende a passadeira...

A curva apertada do Bloco 
Insuspeito de simpatias bloquistas, o politólogo Pedro Magalhães explicou ao Público a opção do Bloco no chumbo do Orçamento do Estado: «o grande problema em que o BE e o PCP se colocaram foi que eram tratados pelo PS como se fossem oposição e eram vistos como se fossem parte do governo. Muita gente achava que a ‹geringonça› ainda existia depois de 2019. Não existia coisa nenhuma”. Depois de recusado por António Costa um novo acordo de geringonça, a escolha do Bloco era entre tornar-se um satélite do PS ou, ao invés, continuar a ser uma força com mandato transformador. Ao fazer a segunda opção, o Bloco perde parte dos votos que teve em 2019 mas assegura o mais importante: a autonomia do seu projeto político, sem o qual não haverá uma esquerda capaz de enfrentar as dificuldades dos próximos anos. Recorde-se que, nas eleições de 2011, o Bloco também perdeu representação parlamentar, caindo de 16 deputados para oito. Quatro anos depois, conseguiram 19 deputados, um máximo histórico. Cá estamos então, para o que der e vier.

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