Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

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Eram poucos os que, em S. João da Madeira, se importavam com a dissidência de Alpoim e com os seus galhardetes atirados ao vento.

O nosso padre António Maria rezou a sua primeira missa no dia 5 de novembro de 1905. Fê-lo em S. João da Madeira, na igreja matriz, no ano em que José Maria de Alpoim rompeu com o partido progressista e arrastou atrás de si seis deputados dissidentes. O nosso padre, em 1905, mesmo apreensivo, não imaginava como iriam ser tramados daqui a pouco quase todos os homens de sotaina. Em 1905, pelo menos na província, as cornetas e as matracas ainda não causavam muito barulho e confusão. Com boas ou más maneiras, a postura geral era solene, tristonha hoje, sem graça e brilho, mais alegre e festiva amanhã. Então, eles, os republicanos, pelicanos e papagaios, continuavam a desprezar as aldeias e as pequenas vilas; quando apareciam por aqui eram preguiçosos e desleixados, cheios de sono e com vontade de voltar depressa ao Porto, a Coimbra, se fosse possível a Lisboa. Por ali, nas ruas da cidade, no fim das contas do bulício, a vida era mais bela! Eram poucos os que, em S. João da Madeira, se importavam com a dissidência de Alpoim e com os seus galhardetes atirados ao vento. Quando António Maria rezou a sua primeira missa na igreja matriz quem sabia, em S. João da Madeira, que José Luciano de Castro conseguira, em setembro, encerrar as cortes por causa da irritante obstrução parlamentar ao seu governo?
José Luciano, do partido progressista, chegara ao governo no ano anterior, depois da queda do governo mais conservador de Hintze Ribeiro. Hintze e Luciano costumavam alternar. Por um lado, questões como as do tabaco e dos fósforos tinham tramado outra vez Hintze. Por outro lado, a crise da produção de vinho e a pujança dos republicanos ajudaram José Luciano. Portugal continuava desengraçado e pobre. Com algumas candeias e luzes mais ou menos mortiças, pelo menos para alguns. O nosso padre, ainda que se divertisse diariamente com o seu violino, entregue à tarefa de rever as pautas, provavelmente desconhecia o movimento editorial do ano de 1905. A província, dizia-se que demasiado tapada, desconfiava da capital. Dos seus divertimentos estridentes. Dizia-se que a província, com as suas pombas adormecidas, sonolentas e mascaradas, se arrepiava com coisas inexplicáveis como o era a excessiva atenção que alguns davam à leitura. Mas não querendo ser incomodada na sua maneira tranquila de viver, na sua imobilidade contida, a província gostava às vezes de baixar a cabeça. No ano em que o nosso padre rezou a sua primeira missa, quando Alpoim criou um novo partido dissidente e José Luciano encerrou as cortes, alguns leitores mais atentos ficaram impressionados com alguns títulos lançados na capital, como os de Luís Gonçalves ou Fernando Emídio da Silva sobre os operários e a questão social; mas, sobretudo, com Basílio Teles e o seu conhecido Do Ultimatum ao 31 de janeiro. No arco virtuoso da política, no meio de alguns estafermos insistentes, às vezes muito parecidos uns com os outros, monárquicos e republicanos atreviam a incomodar-se.
O padre António Maria começou então a sua atribulada carreira ao serviço de Deus. Por enquanto,1905 estava relativamente distante de 1910. Ordenado sacerdote, ainda se manteve António nos Carvalhos, a dar aulas e a perceber solfejo por pautas. Podia ficar acordado até à meia noite, a manhã em nada afetaria a sua rotina na sala de aulas. Em 1905, uma reforma do ensino secundário de Eduardo José Coelho mudara os planos de estudo. As letras ficaram mais equilibradas com as ciências, manteve-se o francês como a primeira língua estrangeira, mas António Maria mudou então de vida. Podia continuar a emocionar-se com o seu violino, ouvir duas ou três árias. Mas sem poder dar aulas, porque foi nomeado pároco da Lomba, no concelho de Gondomar. Agachou a cabeça junto ao Douro. Revertendo as pautas, sabia que era capaz de falar de Deus a gente ignorante. Pode ter chegado à Lomba numa manhã de chuva miudinha e ficado desgastado com o alvoroço das mulheres e a algazarra das crianças da aldeia ribeirinha. Dizia-se que o jovem pároco era um homem afável e tolerante. Não procurava a pândega, o barulho histriónico. Não precisava de falar muito alto para que as portas não se fechassem. A Lomba, os seus pescadores e os seus camponeses, seduziu-o. Abriu-lhe um palco, tomou-o a peito. António Maria descartou deixar aquelas populações pouco finas. Junto ao Douro, na sua margem esquerda, entre aquela pobreza confrangedora, o padre conseguia olhar mais para cima.
Sol de pouca dura. Tempos difíceis, António não conseguiu levar a verdade até ao fim. Por aqui, chamava-se padre, mas padre tornou-se uma coisa merdosa e daninha. Situemo-nos em 1908, com o nosso padre a viver na Lomba. Pode pensar-se que, no início do ano, ainda podia olhar para um mundo com algumas cores. Mas não: algo tinha chegado para lixar todos. As igrejas esfumaram-se, deixaram de ficar abertas todo o dia. Cansado de discussões, o padre António Maria ficou menos aberto, afável e tolerante. Um rolo de massa acertou-lhe nas costas no princípio de fevereiro. Tinham assassinado o rei. Raios os partam, na penumbra da esquerda carbonária, sendo impossível descartar o risco. O padre António ia ter de arrepiar o seu caminho. Na falta de monárquicos convictos, quase toda a gente sabia o que estava para vir. As orelhas, os narizes e as bocas dos padres eram olhados como um disparate. Uma malícia, quando se acreditava que tinham uma maçã bondosa para oferecer. A sua índole e o seu aspeto, servindo como testemunhas, tornam-se deploráveis.
A Lomba, na margem esquerda do Douro, com a sua madeira e a sua lenha, o seu carvão e a sua urze, viria a tornar-se um episódio breve na vida pouco experiente de António Maria. O tempo possível passou a ser o de Mosteirô. Era o fim do ano de 1910 e António Maria achou injusta a sua transferência para a freguesia da Feira. Do 5 de outubro era melhor não falar. Das suas paredes enfeitadas e torpes. Ninguém conseguia ficar insensível àquela doença carnal. O nosso padre foi levado à força da Lomba, a terra da lenda do pé de moura. Escreveu-se n’ A Defesa Local que aquela expulsão foi por motivos alheios à sua vontade. António queria ficar pela Lomba mais algum tempo, continuando a rezar junto à cantaria da igreja matriz, ao seu altar mor e à imagem do Divino Espírito Santo. Na Lomba, pelo menos, podia continuar a pescar sável e lampreia. Afastado da Lomba podiam, ao menos, tê-lo mandado para Roma, porque António era um orador limpo e correto. Infelizmente, não pensava assim o novo regime saído do 5 de outubro. Lê-se n´ A Defesa Local o contexto: Alguns fanáticos e ignorantes da freguesia, feitos à pressa republicanos históricos e armados com a força do mando e das doutrinas que dia a dia desciam do alto pretenderam também, pobres mentecaptos, transformar na sua terra o regime religioso. António teve então que mudar o sentido do relógio. Não valia a pena abafar as vozes dos verde rubros que em várias terreolas da província de somenos importância e categoria apareceram deste supor - Napoleões de lata enferrujada.
Mas o nosso padre não era homem para ficar inativo. Ainda tentou, em Mosteirô, dourar os altares da velha igreja ou tornar mais atraentes os atos formais do culto. Na Murtosa, para quem se dirigia até ao couto, António Maria deve ter evitado frequentar a quinta onde tinha nascido, um século passado, o general seu quase homónimo, engenheiro dos caminhos de ferro, maçon e republicano. Preferiu fugir para margens distantes. Enganado, sufocado, acossado, o padre António Maria ainda tentou bater com a tampa. A Defesa Local deu-lhe atenção em 1915, quando a luta entre republicanos andava muito virulenta e a subida dos preços provocava assaltos às padarias. O caos, já o tinha previsto o nosso padre cinco anos antes, quando o óleo começava a ficar rançoso: Vendo que o seu sacrifício era inútil num regime de terror e com tais mentores a estorvar-lhe os passos, fez o que lhe mandou o Evangelho – sacudiu o pó dos sapatos nos limites da freguesia e veio para casa. Em S. João da Madeira, não ficou António Maria parado. Não só se dedicou com amor e arte à cultura da oratória sagrada e da música como, não cessando os seus lamentos, criou uma tuna com jovens da terra. Roma ficava adiada por uns tempos. Ainda bem, acreditavam os conterrâneos: Elegante, bem posto e sacudido, não desmerecia nem desabonava a corte de Roma se nós e ele tivéssemos a infelicidade de o ver emigrar para lá, e que Deus não permita.

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