Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

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Todos olhavam o presbítero com admiração e respeito. Ninguém o subestimava quando o viam, com as suas roupas escuras, sentado num cadeirão ou a descer solene, com as feições suaves e o olhar modesto, a nave central da igreja matriz. Antes de ali estar, na igreja, o padre António Maria d’ Almeida Pinho tinha andado por casa a tocar violino. Era um padre apaixonado, que se sentia tão à vontade junto do crucifixo como do seu instrumento musical preferido. Na terra onde nasceu todos conheciam as qualidades especiais do António Maria. Nascera o futuro padre nas Vendas, no dia 22 de março de 1883, filho de um casal de sapateiros, Ana Emília de Jesus e Gaspar d’ Almeida Pinho. Quando tinha vinte e sete anos e à sua região chegou um telegrama a avisar que, em Lisboa, a monarquia tinha chegado ao fim, um correligionário mais novo, apaixonado em colecionar factos, alguém que conhecia bem a história pátria, lembrou-lhe uma confrangedora coincidência. No mesmo ano em que tinha nascido António Maria, os vitoriosos de outubro andaram a concertar as coisas para um dia, não muito distante, de repente, fazerem o regime tremer e ruir de vez. Há pelo menos três anos que os republicanos lusos andavam particularmente ativos e agitados. O tricentenário da morte de Camões trouxe uma conversa que viria a tornar-se insistente: o poeta nacional, trezentos e oito anos passados desde a primeira edição d’ Os Lusíadas com a preciosa ajuda do jovem D. Sebastião, tinha-se transformado no maior dos heróis republicanos.
Em 1880, o rei D. Luís sentiu-se incomodado com a ideia implícita de um mundo que parecia desagradavelmente prestes a ser surpreendido. Invocou outros afazeres para não seguir de perto a venda de chapéus e de sapatos à Camões. O rei não apreciava aquelas conversas de rua em tom conspirativo e o mesmo acontecia com o chefe do governo progressista da altura, Anselmo Braamcamp. O primeiro cortejo de 10 de junho, realizado em Lisboa, foi uma dor de cabeça para a maioria dos monárquicos, da esquerda à direita. Para os republicanos, pouco numerosos e quase todos a viver nas cidades, as coisas pareciam correr sobre rodas. Sentiam Camões do seu lado para ajudar a fazer renascer a pátria moribunda. Uns anos depois, na sua História das Ideias Republicanas, Teófilo Braga lembraria, na sua claridade ofuscante, aquela data maravilhosa: Nesse dia, todas as forças vivas, tudo quanto há com futuro ainda nesta pequena nacionalidade, vibrou com unanimidade ao impulso de um estímulo consciente, a tradição ligada ao nome de Camões como representante e o símbolo da civilização de um povo que se sente da vida histórica. A nação inteira compreendeu esta grande data, em que a perda da nacionalidade coincidiu com o passamento daquele grande espírito, que ao ver a pátria invadida pelos exércitos de Filipe II, expirou num desalento que se tornou o protesto eterno da liberdade. Sendo assim, acreditava o nosso positivista que o dia 10 de junho de 1880 não podia, fosse qual fosse a circunstância, passar despercebido: era uma prova terrível contra a nossa vitalidade, e a nação compreendeu o sentido desse grande dia. Como se sabe, nos séculos vindouros, tornou-se regular e solene a comemoração patriótica.
Mas não foi só para Portugal que serviu a auspiciosa lição do dia 10 de junho de 1880. Voltemos a Teófilo, habituado a atirar para cima das costas o peso tremendo da História e da propaganda. Teófilo acreditava em não ser possível esconder as evidências, passar a vida a disfarçá-las num estado de espírito pesaroso. Por isso, Teófilo sentiu-se à vontade para dizer que o tricentenário de Camões mostrou à Europa que sabíamos tirar partido da maior tradição do nosso passado histórico o estímulo para um renascimento. A festa da nossa primeira glória literária e artística foi simultânea por todo o território português, e fez-se por fundações fecundas de iniciativa individual, pela cooperação ativa dos municípios, que compreenderam que eram os representantes diretos da liberdade nacional, e pelo acordo de todas as classes sociais. Com tantos prémios literários para generosamente distribuir, com tantas inaugurações de bibliotecas e de bairros populares, a festa de Camões excedeu tudo quanto era possível prever. Era muito improvável encontrar melhor amuleto. Os republicanos de 1880 exploravam bem a história e socorriam-se de Camões e do ano da sua morte, quando Os Lusíadas, no momento em que o usurpador do Escorial fazia perigar a soberania de Portugal, profetizaram sobre as glórias passadas o bem-estar e a independência porvindouros.
Assim como em 1580, assim em 1880. A comemoração foi tão grande que passou as fronteiras, atravessou os Pirenéus e a Europa civilizada, estendeu-se depois até à América, todo o mundo se rendeu às evidências e se deixou contagiar. Portugal, por uma vez, era forte àquele ponto. Seguindo sempre o nosso republicano dos Açores, a Europa deu um carácter universal ao jubileu deste pequeno povo: em França, Itália, na Alemanha, Suécia, em Bóston, na Filadélfia, celebraram-se comemorações generosas e comoventes, glorificou-se o nome de Camões em livros e trabalhos artísticos que ficam. Teófilo e os seus correligionários eram os herdeiros legítimos do grande vate nacional. Assim, em 1880, como acreditava Teófilo, o Partido Republicano, considerando-se legítimo representante do simbolismo camoniano, consubstanciava as esperanças do povo no renascimento da grei lusitana. Foi dele, do Partido Republicano, que nasceu a ideia de comemorar dignamente o tricentenário da morte do Épico, como sintoma de vitalidade e crença no futuro, e não como atitude fetichista e retrógrada de reverenciar as passadas grandezas. Infelizmente, para atrasar a História, havia uma série de republicanos, enfezados uns outros nem tanto, com culpas no cartório.
A desunião entre eles era bizarra. Por isso, entre a festa de Camões e o nascimento do nosso conterrâneo, em 1883, continuaram as lutas entre moderados e federalistas, entre esquerdistas e conservadores... eram muitas as clivagens de clube que, naquele ano de 1883, se tentaram superar com a realização de um congresso unificador e conciliador.
Quase trinta anos decorridos, já padre e com paroquianos para guiar, António Maria sentir-se-á desnorteado com o triunfo republicano no 5 de outubro. Parecia perdido no meio do nada, o mundo deixara de rodar à volta das suas sete quintas. Era ainda muito novo quando, a pensar no futuro, convenceu os pais a deixarem-no ir estudar para o internato dos Carvalhos; fizera ali os estudos preparatórios antes de seguir para o Porto; aqui, no seminário, iria continuar os estudos superiores, indispensáveis à carreira eclesiástica para que António se sentia inclinado, sem suspeitar do que estava para acontecer em 1910.
Consta ter sido um estudante modelo, muito respeitado por mestres e condiscípulos. António concluiu os estudos no seminário do Porto em 1904, mas desconhecemos se esteve a par do motim ocorrido no final do ano, em Bragança, quando seminaristas se revoltaram contra os exageros disciplinares, incluindo algumas expulsões, aos que demonstravam pouca vocação em seguir a carreira eclesiástica. Naquele ano, quando se instalou a primeira linha telefónica entre Lisboa e o Porto, António Maria voltou para os Carvalhos, para dar aulas no internato. D. Carlos andava então muito atarefado a receber dois monarcas – a rainha de Inglaterra, Alexandra, o imperador da Alemanha, Guilherme -, e o presidente da República francês, Émile Loubet. Ainda muito jovem, com pouco mais de vinte anos, António Maria não tinha idade para receber as ordens sacras.
A vocação para Deus não anulara o seu amor às letras e à música. Quem o conheceu bem gostava de dizer que, desde muito pequenino, era um exímio cultor do violino. Tocou-o a vida inteira, mas teve de esperar um ano para cantar a primeira missa. Era 5 de novembro de 1905 e a igreja matriz da sua terra natal, a beleza do lugar, encheu-se de luz e solenidade. O padre António ainda tinha uma mão cheia de anos para viver, nas suas sete quintas, até se sentir abandonado pela angústia.

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