Sociedade

“Os sem-abrigo aprendem a não chorar no Natal”

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São duas histórias diferentes de pessoas sem-abrigo, em S. João da Madeira. Um vive na rua, e outro está, há dias, num dos Apartamento de Autonomização da autarquia. São histórias difíceis de quem diz que já aprendeu a não chorar no Natal.

João Paulo, 49 anos, natural de S. João da Madeira, vive na rua. Tens noites que dormita numa casa fria e abandonada.  Há seis meses que deixou de ser recluso. A prisão foi o seu “lar” durante um ano e quatro meses. Obrigado a pernoitar onde pudesse, transformou-se num “arrumador de carros”, junto ao centro de saúde da cidade. Cada moeda que lhe possam dar vai ajudando, pouco, “nesta vida desarrumada”, diz.
Como todos nós, João Paulo já foi criança, os pais eram de Cucujães, e tem recordações de Natal felizes. “Uma  família à volta de uma mesa, cheia de sorrisos”. Mas, a vida anda depressa, e os pais já faleceram. “Tenho um irmão em Gaia, uma irmã aqui mais perto, com quatro filhos que não consegue ajudar-me...”.
Com uma voz trémula, educado, este homem não nega que, apesar das circunstâncias da vida, “o Natal para mim tem muita importância”, mas “os sem-abrigo aprendem a não chorar no Natal”. Talvez a força que tem, e a “vontade de viver”, nos tempos que correm, a filha, de 23 anos, poderá ser a “luz da minha esperança”. “Ela não sabe que eu vivo na rua, nem quero”, revela.
Não faz planos para esta época. Os presentes não têm importância para este homem, que sabe que terá uma refeição porque a Santa Casa da Misericórdia lhe oferece, diariamente. “Uma boa prenda neste Natal era ter um lugar para morar. E ter um emprego. Gostava de fazer qualquer coisa. Trabalhei com sapatos, na construção civil e vou fazendo uns biscatos”.
Recebe pouco mais de 100 euros do Rendimento de Inserção Social. “Mas, o que queria mesmo, era pagar uma renda para ter o que mais falta me faz, um teto”. E continua “A polícia não quer que estejamos na rua, como arrumadores de carros”. Contudo, com gratidão, diz: “Ninguém é obrigado a dar, mas toda a ajuda é bem-vinda. E agradecemos, mesmo aos que não podem dar-nos uma moeda”.

Ar­tigo dis­po­nível, em versão in­te­gral, na edição nº 3871 de O Re­gi­onal,
pu­bli­cada em 23 de dezembro de 2021

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