Sociedade

Mural de Vhils destruído pelo tempo nas paredes da Oliva

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Vários rostos de antigos trabalhadores da metalúrgica Oliva, escavados nas paredes da antiga fábrica Oliva pelo reconhecido artista Vhils, perderam-se com o tempo. O artista diz desconhecer o estado em que se encontra o seu trabalho.

Vhils, ou Alexandre Farto, tem no seu currículo uma intervenção realizada em 2013, onde esculpiu, nas paredes da antiga Oliva, em S. João da Madeira, que foi um dia um “Império do ferro”, rostos de funcionários da antiga metalúrgica, com o objetivo de preservar a memória daquela que foi uma das indústrias mais importantes do país, vê, agora, a sua arte ser destruída pelo tempo e com marcas de vandalismo.
“Eu deixo que as minhas obras vivam e que se adaptem ao espaço. Isso é algo natural que vai acontecendo com as minhas obras. Não tenho conhecimento do estado em que se encontra a obra atualmente, pois a última vez que a vi foi há cerca de dois anos”, revelou o autor a ‘O Regional’.
Vhils confirma que, “normalmente, adapta o seu trabalho ao local”, e, grande parte das vezes, “é o material que vai ditar como é que o trabalho vai evoluir com o tempo”, mas, por natureza, “o meu trabalho é efémero, e as peças vão-se adaptando ao local”, enfatizou.
A obra era um convite à reflexão sobre o abandono da indústria portuguesa. Vhils, o artista plástico com origens no grafitti e na street art, que crava retratos em paredes de todo o mundo, deixou a sua arte estampada em cinco murais, na Rua da Fundição, onde eternizou a mulher que foi eleita Miss Oliva e deu cara por uma campanha publicitária de 1960, que vive ainda na memória de várias gerações e ainda rostos masculinos de dois trabalhadores, cravados junto a uma árvore, e da silhueta de duas crianças, que remetiam para a ideia de futuro para a Oliva Creative Factory.
Na altura em que o artista foi convidado para a realização do trabalho, a ideia, segundo nos recordou, foi “tentar criar um paralelismo entre  o marketing que existia à volta da Oliva, a partir das fotografias de trabalhadores  antigos da fábrica”.
O certo é que, tal como o tempo, o rosto da miss Oliva e dos outros trabalhadores desapareceram. Estão irreconhecíveis, revelando as marcas de desgaste do tempo e há ainda grafittis nas paredes. Contudo, o que resta da arte de Vhils é um cinzento na pedra suja e fria, com palavras que, ali, não deveriam ter sido escritas, manifestação do que podemos designar vandalismo. Dos rostos, outrora lá escavados nas paredes para criar retratos profundos, já nada se percebe. Apenas umas linhas que moldam o que teriam sido as cabeças ali eternizadas.
Na verdade, aquelas paredes perderam o que tinham ganho, com a vida que o artista lhe tinha gravado.  Uma história que é apagada, não pelo tempo, mas esquecida para sempre.
Questionado quando a um possível “tratamento” para preservar a sua “arte”, adianta que “tudo depende do tempo, local e do tratamento que é dado”. Prometeu uma visita ao local para se inteirar do estado da sua obra. ”Não sou muito a favor de proteger as obras com vidros ou acrílicos, muito menos em espaços públicos”, mas acredita que esta “poderá ser uma solução, mas não é a de todo a que eu estava a pensar”. Porém, só depois de uma visita, “é que me poderei pronunciar sobre o assunto”, disse.
O criador lembrou que, na altura, aceitou de imediato o convite da Oliva Creative Factory, e que o mesmo foi “mais um” dos muitos desafios profissionais. “É importante não só preservar a memória social e coletiva destes locais, pessoas, como também tentar entender as razões por trás deste abando e desinvestimento sistemático no sector terciário (e primário), que temos vindo a assistir nos países industrializados”. Por outro lado, recordou, que, no caso em particular de S. João da Madeira e da Oliva Creative Factory, aquela estrutura é o reflexo de que a comunidade local está disposta a investir no futuro, uma oportunidade de contribuir para uma nova dinâmica foi também motivada”.
Questionada sobre o assunto, a Câmara Municipalde S. João da Madeira não respondeu em tempo útil as nossas questões.

Ar­tigo dis­po­nível, em versão in­te­gral, na edição nº 3868 de O Re­gi­onal,
pu­bli­cada em 2 de dezembro de 2021

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