Opinião

Como fabricar uma crise política

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Lembra-se das palavras de António Costa na noite das eleições de 2019? É natural que não se recorde, elas já vão longe. O líder do PS declarou que “os portugueses gostaram da geringonça” e queriam a continuação desta solução política, sendo por isso dever do governo contribuir para essa estabilidade. António Costa tinha razão nas palavras, mas não passou aos atos.
Quando, poucas semanas depois, o Bloco propôs ao PS um acordo que começasse por revogar as normas do código de trabalho vindas da troika, em particular a redução do valor das horas extraordinárias e das indemnizações por despedimento, António Costa pediu para pensar. No dia seguinte, à saída de uma reunião com as associações patronais e para alegria destas, garantiu que o seu governo deixaria intocada aquela herança da troika.
Ao recusar um acordo, o PS anunciou uma governação à vista, dependente de acertos pontuais e de perna curta. A geringonça durou o tempo de uma legislatura inteira porque era uma negociação permanente, sim, mas assente em acordos políticos de base com metas garantidas e calendarizadas. Em 2019, sem acordo que a segurasse, a geringonça caiu, morta pelo PS.
No parlamento, António Costa juntava os votos do PS aos do PSD para chumbar as propostas da esquerda sobre o trabalho, os serviços públicos ou os impostos. Ao mesmo tempo, passou a exigir ao Bloco e ao PCP a aprovação dos orçamentos do PS sob chantagem de crise política.
Para dramatizar a sua crise política, o PS usou argumentos falsos - fosse a propósito da carreira dos professores, do IVA da eletricidade ou da verificação das contas do Novo Banco antes de novas injeções - para descredibilizar propostas justas e viáveis. Ainda agora, voltou a fazê-lo, ao dizer que a proposta de eliminação do “fator de sustentabilidade” das pensões (o duplo corte para quem se reforma com mais de 60 anos de idade e 40 de descontos) poria em causa a sustentabilidade da segurança social, o que é absurdo.
A recuperação de poder de compra faz-se com salário e não com ivauchers; a degradação do SNS resolve-se com carreiras dignas e não com a duplicação do pagamento a partir das 500 (quinhentas!) horas extraordinárias... Ao abrir a porta a acordos pós-eleitorais com o PSD, António Costa apenas contribui para o pântano político. E tudo isso porquê? Para persuadir o país de que a única resposta é uma maioria absoluta do PS? A última maioria absoluta foi a de José Sócrates. Então ministro desse governo, António Costa devia recordar-se onde ele acabou.
A direita não oferece qualquer perspetiva sobre o país (nem sequer sobre si própria). É à esquerda que tem de encontrar-se soluções. Como Costa reconhecia há dois anos, Portugal gostou da geringonça e por isso rejeitou uma maioria absoluta. Hoje como então, os eleitores de esquerda, empenhados em respostas capazes para a Saúde, o trabalho, as pensões ou o clima, sabem que - tal como em 2015 - essas respostas dependem de duas coisas: primeira, que a arrogância de António Costa seja castigada e que fracasse o seu projeto de maioria absoluta; segunda, que seja maior a força da esquerda, para que não se adiem de novo as grandes mudanças que o PS tem recusado fazer.

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