Opinião

Por alguma coisa se tem de amar a terra...

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Nos anos que precederam a guerra de 14, um novo vocabulário irrompeu cheio de febre, causando uma grande agitação pela província. Apareceu no ar uma enorme disparidade de desejos, angústias e esperanças, sem que ninguém ficasse em paz por muito tempo, a lavar com denodo a roupa suja. Charcos, do passado e do presente. Para alguns, com pouco talento para aventuras destemidas e desordeiras, claudicando, a ordem das coisas era uma choradeira mais ou menos pegada. Saudades, quase sempre: à espera que o passado irrompesse num presente duro, lastimável e perigoso. Para outros, para lá do nervosismo e de uma realidade que se mantinha opaca e indefinida, os novos tempos eram uma graça cheia de carinho e proteção. As batalhas que se iam travando eram quase sempre escassamente épicas, com insultos mútuos e reprensões sem fim. Para um conservador, no caso que nos interessa, apesar da sua irrepreensível postura profissional, era difícil evitar meter-se, em algum momento da sua vida mais ou menos longa, com o republicano mais difícil da época, Afonso Costa; ou de, numa contenda inútil, conseguir um lugar mais seguro e sossegado para se resguardar e proteger da sombra do vulto omnipresente da Estrela. Como se sabe, o homem enervava, enfrentando o vento e os medrosos, sempre a rolar numa velocidade excessiva e desequilibrada. Até nas escadas comuns, era difícil manter a paciência. Pensemos nas testas quase sempre quentes, como as da condessa de Penha Longa quando teve que se encontrar, num terreno aparentemente inóspito e desabrigado, sem avental à cintura, com o homem forte, desatinado e devasso, da República.
Clementina Libânia, a condessa de Penha Longa, era uma mulher notável. Constava que o seu amor pela vida não tinha grandes pressas. Engenhosa e prática, diziam que possuía cinco corações, o primeiro dos quais tinha dedicado, com um amor extraordinário, permanente e obsessivo, às crianças desvalidas. Em relação às crianças, como em relação aos pobres em geral, quem conseguia rivalizar com a condessa de Cucujães? Nem o marido, o seu tio Sebastião, com quem fundara o Asilo da Gandarinha, em 6 de setembro de 1874. Com quinze anos de idade, a baiana Libânia casara com aquele tio paterno no inverno de 1855. Nascido no verão de 1815, Sebastião era um terço de século mais velho do que a sobrinha. Mas não se pense que estava habituado a baixar a cabeça. O marido de Libânia, de apelido Pinto Leite, era um homem viajado, com negócios de grosso trato na terra natal da mulher, em Londres e em Manchester. Alguns ainda hoje o imaginam, ao casar com a sobrinha, como se não tivesse acontecido nada de particularmente relevante na sua vida austera e mesquinha. Com o casamento, Libânia habituar-se-ia a viver a maior parte dos seus dias na casa da Gandarinha, não muito longe do pequeno rio Ul, numa terra onde as coisas aconteciam muito devagar. Libânia podia passar ali despercebida, sem os sobressaltos ruidosos da Baía natal ou da Lapa, na capital portuguesa, onde a futura condessa dirigira um asilo para crianças desvalidas. A mulher dos cinco corações, um dos quais chegaria a bater compulsivamente na distante e exótica China, repleto de citações dos apóstolos e de Deus, dificilmente seria surpreendida de costas voltadas, cheia de compaixão, para essas crianças pobres e abandonadas em qualquer lugar do mundo.
Um dia, no ano de 1913, a sua casa da Gandarinha abriu as portas à festa da árvore. A terra que, pelo casamento, Clementina Libânia escolheu para viver tinha sido, durante séculos e séculos, uma terra de monges beneditinos. Um couto, dizia-se por obra e graça dum príncipe chamado Afonso, o remetente de uma carta cheia de promessas e contrapartidas bem recebidas por um abade e um cavaleiro medievais nativos. Martinho e Egas, assim se chamavam os dois influentes, com os seus cavalos e os seus maravedis, não ficaram surpreendidos com a boa vontade do príncipe. O couto ia ter uma longuíssima vida. Em 1913, quando já tinha passado à história, a condessa, septuagenária e viúva, convidou um conhecido professor da universidade do Porto para vir à sua terra natal falar de árvores. Com a sua postura profissional, sem embaraço, debaixo de mil olhos, o professor iria demonstrar de uma forma evidente, idónea e consistente, que as árvores não eram património exclusivo de um grupo sectário, pouco virtuoso e habituado a roçar o sacrilégio. O professor não era ingénuo. O amor às árvores não era o amor por um monte conspurcado de bosta; uma árvore não era uma ferramenta cheia de ferrugem caída em mãos incrédulas, meteóricas e republicanas. Amar uma árvore era como amar uma criança. As árvores da Gandarinha eram às centenas, como às centenas eram as crianças a quem a condessa de Penha Longa, de avental à cintura, rodeada de criadas atarefadas e diligentes, servia, diariamente, uma suculenta sopa de feijão e couve.
O professor chegou do Porto para, numa ação de luta, falar de árvores generosas em qualquer lugar do mundo. Desconhecemos se fez a viagem de comboio a vapor, desde Espinho, descendo o Vale do Vouga, prestando atenção à paisagem e à vegetação envolventes. Se o fez, o professor devia estar recordado da viagem inaugural da linha, quando acompanhou o último rei. Em princípio, poderá ter sido a última vez que viu D. Manuel, com a sua voz calma e embargada, a viajar no mundo dos vivos. O professor gostava de reis e desprezava os problemas ideológicos, sem solução, dos novos tempos, as suas rapsódias de maldade e discórdia. Como toda a gente, entre relatos falsos e meias conversas, não teve outro remédio do que adaptar-se aos novos tempos, controversos, com as suas demolições violentas e as suas construções vistosas, como as da sua amada faculdade de ciências. Com a distância de um passo curto, a República permitira que o professor se fizesse lente universitário, muitos anos depois da irritante reprovação botânica nas margens do Mondego. Em 1913, vivia-se uma época extrema, cheia de desafios e oportunidades, de exaustão e vontade de trabalhar. O professor, pronto para falar de árvores, terá apreciado ver-se rodeado de crianças tranquilas e afáveis. Amava-as, como as amava a condessa. Amável como gostava sempre de ser, informado e meticuloso, um pouco nervoso, o professor começou a sua aula.
No dia 9 de março de 1913, as crianças presentes nos jardins da Gandarinha não se levantaram enquanto durou a lição do respeitado professor. A condessa Libânia não precisou de chegar ao limite extremo da paciência. Esteve sempre tranquila e sorridente durante a palestra segura e luminosa. As suas crianças eram crianças educadas, sabiam ouvir e guardar as palavras sábias na memória. Na Gandarinha, não havia tempo para pequenas asneiras, como as das festas das árvores republicanas. O professor convidado gostava de falar de coisas sérias, não queria parecer um funcionário governamental, reverente e insonso. O professor pôs os óculos para decifrar a sua letra miudinha. Tinha dezoito páginas para ler com moderação, equilíbrio e bom senso. Meninos e adultos presentes na Gandarinha seguiram-no: A festa da árvore é a propaganda viva e insistente feita pelo exemplo, à sombra de todas as forças vivas das localidades e com o concurso alegre das crianças, para que se organizarem sociedades florestais e protetoras do arvoredo, a fim de se conservarem as florestas existentes no nosso país e formem outras, onde sejam precisas, aumentando assim a nossa riqueza pública e particular. Ficava dito: uma árvore também era economia. O olhar do professor, cheio de bondade e erudição, atravessava tranquilamente baldios, montados, charnecas, pântanos, terra bravias.... Afinal, inspecionando qualquer alma, existiam tantos ângulos para observar uma árvore!...

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