Opinião

Memórias da guerra...

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Costumo dizer que a vida é feita de marcos, que ficam lá para trás, nos caminhos, por vezes tortuosos das nossas vidas.
Não raras vezes, paramos e vamos aos álbuns de recordações e chocamos com alguns desses marcos. Paramos... recordando a nós mesmos como foram alguns desses tempos. Há quem diga que recordar é viver. De certo modo é verdade... E até tem vantagens, pois se não gostamos daquilo que estamos a recordar é só desligar e partir para outra.
Desta vez sou eu próprio que forço a memória a levar-me aos tempos que tinha onze anos. Nessa altura começamos a ter notícias da guerra que tinha rebentado nas ex-colónias portuguesas do dito Ultramar. A partir desse tempo tudo se transforma, começa a mobilização dos mais velhos, mesmo de alguns que já tinham feito o serviço militar. Começa a mentalização, de algo que para nós era difícil entender, como termos de defender a Pátria. Na escola obrigam-nos a comprar uma farda da Mocidade Portuguesa e todas as manhãs de sábado ensinavam-nos a ser militares. Ordem unida, com marchas e formaturas. Com hierarquia a cheirar a fascismo. Como passaram rápido aqueles dez anos... Para além de todas as vicissitudes que aqueles anos representaram, tive sempre uma defesa psicológica. Como jogava basquetebol, acreditei sempre que ia para Angola e ia jogar no Benfica de Luanda. Esta parte concretizou-se. O resto, a guerra... Ah, a guerra. A minha ida para Angola foi de avião. Ao chegar a Luanda vi a realidade daquela cidade, o enorme contraste social. E fiquei com a nítida sensação de aquele povo tinha toda a razão na disputa que travavam com o povo invasor, que éramos nós.
Hoje, ao olhar para trás, tenho a noção de que Angola é um país maravilhoso. Contudo sinto que a independência não resolveu os problemas. Hoje, ao ver as imagens que chegam de lá, continuo a rever-me naquele avião que me levou para Angola e continuo a ver as enormes diferenças sociais...
Anos das nossas vidas lá enterradas, vidas, muitas que lá ficaram. Porquê, e para quê?! As guerras, todas as guerras revelam da parte das pessoas que as promovem uma falta enorme de inteligência!
Nos discos, ouçam o baterista Art Blakey.
Na leitura, “Vercoquin e o Plâncton”, de Boris Vian, um escritor dos anos trinta do século passado.
Não deixem que as más memórias vos chateiem!

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