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O antigo lugar das Vendas – IV

O primeiro café de S. João da Madeira, digno desse nome, foi o Café Rex. Abriu ao público a 18 de junho de 1938 e os seus proprietários, Gomes Martins & Fonseca, não se pouparam a esforços para apresentar um estabelecimento bem montado “com pessoal muito habilitado, aliando ao bom gosto na sua disposição esplêndidas instalações higiénicas, para a comodidade dos seus frequentadores”, como é referido na edição número 429 do jornal O Regional.
Instalado no edifício onde esteve, muitos anos antes, a “venda” do Serôdio e, depois, “A Competidora”, de António Almeida Costa, armazém onde se podia comprar mobília, colchões, louça, cristais, entre outros artigos de utilidade para o lar, o “Rex” veio preencher uma lacuna que se sentia existir na mais industrializada e progressiva vila do distrito. Para além de se dedicar a servir café, chá e outras bebidas, a casa tinha fabrico próprio de pastelaria, de boa qualidade, pelo que não tardou a tornar-se num espaço de encontros e convívios de uma clientela exigente, constituída na sua maioria por homens de negócios e intelectuais sanjoanenses e, ocasionalmente, por pessoas em trânsito entre Lisboa e Porto.
Do outro lado da mais importante estrada do País, a Nacional 1, no edifício que Artur Alves Amorim tinha adquirido a Genuíno Silva, havia a “Casa Natal”, explorada por António Pinho, homem de “espírito irrequieto e vocacionado para os empreendimentos recreativos de sabor popular, onde evidenciou o seu apurado gosto artístico a dirigir cortejos, quermesses e verbenas com fins beneficentes”. Este café, que ocupava o salão de festas do extinto Central Hotel, teve uma curta existência. Em 1939, a “Casa Natal” foi trespassada a José Coelho dos Santos que lhe mudou o nome para “Café Império”.
Depois de uma completa remodelação das instalações, o “Café Império” reabriu ao público a 2 de abril de 1942. Inspirado nos cafés de referência do Porto – “A Brasileira”, “Majestic”, “Guarany”, “Ceuta” – o “Café Império” apresenta, a partir de então, uma fachada de linhas modernas, com duas vitrinas laterais e a frontaria iluminada a luz de néon. A entrada principal ficava ao meio e o acesso ao café era feito através de uma porta rotativa.
Na decoração do interior, naturalmente mais sóbria que a dos modelos de inspiração, imperou o bom gosto do proprietário. Nada foi deixado ao acaso. As paredes estão ornadas com grandes espelhos e decoradas com alguns dos mais populares posters “Porto Ramos Pinto”, do pintor René Vincent. Os vistosos candeeiros suspensos no teto “lançam luz a jorros” sobre o salão principal e a sala de chá. Ao fundo, uma larga abertura arqueada permite o acesso à sala de bilhares. O estabelecimento conta ainda com casas de banho que valem bem a visita, “buffet”, copa e, em compartimento próprio, a cozinha.
O ato inaugural contou com a presença de representantes das autoridades locais, da imprensa e de conhecidas figuras da indústria e comércio da região. Depois dos tradicionais brindes, discursaram António Henriques, em nome da Câmara Municipal, o pároco António Maria de Almeida e Pinho e José Soares da Silva, em nome de O Regional, o que é revelador da importância que foi dada ao acontecimento.

Cauteleiro.
(Foto de Carlos Alberto da Costa)

Com o andar do tempo, o “Café Império” passou a ser frequentado por pessoas de todas as condições sociais. Ali passou a existir o primeiro quiosque para venda de jornais, tabaco e lotaria, explorado pelas figuras típicas do “Ti Zé dos Jornais” e “Ti Gracinda”, sua mulher. O negócio foi continuado pelos seus filhos Jaime Ferreira, José Ferreira e esposa, D. Glória.
A tertúlia que se tinha formado no rés do chão da casa de Francisco Luís da Costa, ali ao lado, acabou por instalar-se comodamente no “Império”. As disputas de renhidos jogos de damas, protagonizadas pelo médico Joaquim Milheiro, por José Augusto Teixeira, Alberto Rodrigues Bulhosa, Valeriano Frutuoso, Mário Nicolau da Costa, Benjamim Palmares, professor Amaral e o próprio “Chico Folheteiro”, entre muitos outros, passaram a ter mesas reservadas e hora marcada. Um hábito que perdurou, tal como o jogo de dominó, com outros protagonistas e com torneios organizados, até ao encerramento do estabelecimento, em meados dos anos 80 do século passado.
Por se ter tornado local obrigatório de passagem e de convívio dos sanjoanenses, o “Café Império” atraiu pequenos negócios de rua, desenvolvidos nomeadamente por engraxadores, cauteleiros e outros vendedores ambulantes. Dos primeiros, permanecem na memória dos mais antigos as alcunhas por que eram conhecidos: Cavaquinho, Branquinho, Mundo e Lero. Do cauteleiro que, na imagem ao lado, está a posar para a objetiva do fotógrafo Carlos Costa, não sabemos o nome. Recordamo-nos do Álvaro gravateiro, que trazia pendurado ao pescoço o expositor com o produto que vendia, da Ti Joana Marola a assar castanhas no extremo sul da “meia lua”, do “barateiro” Tranquilo e de outros que por ali foram surgindo ao longo dos anos a quem, por falta de espaço, não iremos fazer referência.
Em meados da década de 1940, no gaveto que dava para a Rua Dr. Maciel, surgiu o “Café S. João”, explorado pelo sr. Damas, a ocupar o espaço onde tinha funcionado a casa “Jorge & Simões”. Dez anos mais tarde, é inaugurado outro café emblemático de S. João da Madeira, o “Café Eldorado”, situado na Rua Marechal Carmona, hoje Rua da Liberdade, num moderno edifício mandado construir por Américo Nicolau da Costa. São sócios fundadores Alberto Resende Martins, Aurélio Pinho, António de Oliveira Figueiredo, António Pais Vieira Araújo, Carlos Alberto da Costa, Hamilton Figueiredo, José Ferreira Tavares, José de Seiça e Castro, Nicolau Soares da Costa e Ricardo Garcia de Oliveira.
Na década de 1960, a Praça Luís Ribeiro, centro do antigo Lugar das Vendas, assiste ao aparecimento de dois novos estabelecimentos do género, os cafés/confeitarias “Concha Doce” e “Colmeia”. Este, com a particularidade de ficar no mesmo sítio onde esteve o “Rex”, no novo edifício que substituiu o do velho café, inscrito no projeto de remodelação da Praça, assinado por Raul Lino.
Não seria justo encerrar esta crónica sem fazer referência aos empregados dos cafés atrás referidos. E foram muitos. Que nos seja permitido destacar, de entre todos eles, o sr. Aníbal, sportinguista dos quatro costados (como teria sido feliz este ano, se fosse vivo!), funcionário competente e homem afável. Começou por trabalhar no “Rex”, passou pelo “Eldorado” e, ironicamente, terminou a carreira profissional na “Colmeia”.

 

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