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“Depois do Natal, a Páscoa era sempre o momento mais esperado”

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A Páscoa era sempre um dia longo e festivo, com a família a “saltar” de casa em casa, onde recebiam “honrosamente” o chefe da igreja local, que ali chegava com o Compasso.

Tudo começava uma semana antes, com a entrega do ramo aos padrinhos para receber uma prenda no dia de Páscoa. O dia começava cedo. Mostrar a roupa nova na missa da manhã era a tradição. Muitas iguarias, dias e dias de limpezas em casa. A Páscoa era sempre um dia longo e festivo, com a família a “saltar” de casa em casa, onde recebiam “honrosamente” o chefe da igreja local, que ali chegava com o Compasso. Aquela que é, para muitos católicos, a celebração mais importante, era assim não há muitos anos. Hoje, há quem olhe para o passado com saudade. “A Páscoa passou a ser virtual”, e há quem prefira, atualmente, um filme na “Netflix, porque é “mais cómodo”.
“Depois do Natal, a Páscoa era sempre o momento mais esperado”. A garantia é de Carina Moreira, explicando a ‘O Regional’ que na sua infância esta época festiva religiosa era um encontro anual e confraternização familiar. “Enquanto no Natal reuníamos a família mais chegada, na Páscoa havia um encontro alargado a pais, filhos, primos, tios e amigos”. A celebração em família era, para Carina, sinónimo de “casa cheia”, “pois havia uma grande festa, e convivíamos com muitos familiares que só víamos naquele dia. “Era um dia especial, com a chegada do Compasso a pisar os verdes no chão, ao som da campainha. Um dos dias mais especiais do ano, que vivíamos com muita intensidade”.
Passado um ano, a história repete-se, e Portugal volta a viver o período da Páscoa sob apertadas medidas de confinamento. Com 38 anos, e mãe de uma filha, Carina olha para o passado com saudade e com a certeza de que esses tempos já não voltam a ser vividos. “A Páscoa passou a ser virtual. Igual a todos os domingos do calendário, com a igreja vazia, e os que voltavam à terra natal para rever família e amigos rendem-se, agora, a um filme na Netflix, porque é mais cómodo”.
Os que dantes rivalizavam pelas fatiotas, “preferem atualmente concorrer nos likes da foto tirada na Galiza ou no Algarve. Renascer espiritualmente dá muito trabalho num só dia. Eu ‘pecadora me confesso’. Porque vivemos noutra dimensão. No mundo dos pixels e frames de imagem”. E a pandemia parece que veio ajudar à festa dos novos tempos. “Não há abraços sentidos, beijos, toques de pele, olhares cúmplices. Somos máscaras ambulantes, desconfiados do próprio sangue, gel desinfetante dependentes. Somos orelhudos, por​ obrigação. Uma versão Darth Vader, que sempre existe em todos nós”, rematou.

Ar­tigo dis­po­nível, em versão in­te­gral, na edição nº 3837 de O Re­gi­onal, pu­bli­cada em 1 de abril de 2021.

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