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Populares no limite da exaustão

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O dia 2 de março de 2020 vai ficar na história de Portugal. Foi nessa altura que foram confirmados no nosso país os dois primeiros casos de infeção pelo novo coronavírus. De então para cá, foram notificados mais de 800 mil casos.

“Exaustão física e emocional”. Esta é a garantia de Óscar Marques, vigilante, que enfrentou a pandemia de frente, desde março do ano passado. “Não foram dias fáceis. Ainda não o são. Trabalhei sempre, enquanto grande parte das profissões estavam, na sua maioria, em teletrabalho”. Marques diz que também na sua profissão foi necessário “enfrentar o vírus de frente, saber lidar com o medo, o receio de contágio e de contagiar os seus”. Confessa a ‘O Regional’ que, ao fim de todos estes longos meses, se questiona muitas vezes de como “estará neste momento a saúde mental de muitas pessoas, e os efeitos que possam surgir, mesmo em jovens, que se viram privados do ensino presencial”. Este vigilante diz, apesar de tudo, que se sente “um felizardo”, pois conseguiu assegurar o posto de trabalho, “um privilégio”, face às notícias, “com que somos bombardeados diariamente”, enfatiza.
Às 0h00 de 19 de março de 2020, Portugal entrou naquele que era o primeiro estado de emergência pós-25 de Abril. Depois de um verão com algumas restrições à mistura com uma relativa liberdade, incluindo o regresso às aulas em setembro, confirmou-se o pior. A curva pandémica entrou em montanha-russa, com novos picos de infeções e mortes, o que obrigou a uma nova série de estados de emergência e a mais um confinamento, empurrando o país para uma, ainda maior, crise económica e social.

“O único apoio que contei foi o da família e amigos”

“Num ano cheio de números e gráficos, a frase ‘viver um dia de cada vez’ nunca fez tanto sentido como nestes últimos 12 meses”, lembra Hélder Ribeiro, proprietário de um estabelecimento comercial em pleno centro de S. João da Madeira. O jovem empresário lembra que, “no meio de tantas incertezas e contradições que nos chegaram aos ouvidos pelas palavras, quer do Governo quer da Direção-Geral da Saúde, cada um de nós teve de tirar as suas próprias conclusões e sobreviver economicamente como podia”.
Com palavras repetidas ao longo dos últimos meses, como “pandemia, vaga, covid, picos, infetados, mortes”, havia uma que chamava a atenção deste empresário, tanto pela obrigatoriedade de fechar o seu estabelecimento comercial, como pela necessidade imperiosa de pagar os compromissos assumidos e adquirir bens essenciais: “apoios”. Os tão falados “apoios do Governo!”, mas, passados 12 meses, percebeu que o único apoio verdadeiro e real com que podia contar é o “da família e de amigos, porque, se estivesse à espera dos apoios do Governo para comer, o único que conseguiria colocar na mesa seria uma, e literalmente falando, sopa da pedra”. No futuro imediato, Hélder Ribeiro lembra que aquilo que pretende é uma retoma gradual e consistente da atividade económica, e que a palavra “confinamento” faça parte do passado. “Tal como faz parte do passado acreditar em quem nos governa”, remata.

“Eu era feliz e não sabia”

Natália Sá, 54 anos, trabalha num infantário de um centro social, e diz que aquilo que mais lhe custou foi estar fechada dentro de casa, usar a máscara e não poder ir passear à beira mar. “Estive em lay-off desde meados de janeiro até à semana passada. Nunca tinha estado, e, no primeiro confinamento, estive a trabalhar em espelho no lar que pertence ao mesmo centro social. Só este ano senti de forma mais brusca o que é estar tanto tempo em casa privada da liberdade”. Um ano depois ainda lhe custa não ter as lojas ou cafés abertos. “Parece uma coisa de nada, mas afeta um bocado a nossa sanidade mental. Foi um ano difícil, do pior. Como ouvi tanta gente dizer, eu era feliz e não sabia”.
A parte mais fácil deste, já longo, processo foi não ter que cumprir horários. Até poderia estar em casa, mas “estar em casa sem ter liberdade nenhuma é mais difícil do que estava à espera”. No entanto, em agosto, a pandemia ainda lhe possibilitou ir de férias. “Foi no verão, a fase em que recuperámos grande parte da normalidade. Mas depois a situação descambou e foi sempre a piorar”.

“Saturada e exausta de toda esta situação”

Estamos, há mais de 365 dias, a esmiuçar tudo o que se pode falar sobre um vírus, que já ceifou a vida de muitos portugueses. Os hospitais rebentaram pelas costuras, mas foram os médicos, enfermeiros, auxiliares, bombeiros e forças policiais que deram mais do que tinham. A vida continua, diariamente, mas os portugueses estão saturados de tudo o que esta pandemia arrastou. Mergulhados em teletrabalho, com as crianças em casa, e avós impedidos de sair, transforma um cenário explosivo, com falta de paciência entre os que coabitam.
Andreia Gonçalves, assessora de comunicação, está em teletrabalho há tantos dias que já lhes perdeu a conta. As reuniões, a partir de casa, com o filho a intervir, tornaram-se habituais. “Estou saturada e completamente exausta de toda esta situação. Apesar de tentar manter o equilíbrio, pois sou mãe de uma criança de cinco anos, é muito difícil manter-me em teletrabalho, com a mesma concentração.  Já não há a mesma força de missão inicial, porque já passou um ano desde que tudo isto começou. Fazemos caminhadas diárias na hora de almoço, mas não chega para extravasar as energias de uma criança, que não pode estar com os amigos para brincar, nem partilhar, nem socializar. Temos de entender, mas não é fácil”.
Olha para o futuro sem o ver: “A falta de liberdade descompensa-nos como seres humanos, e, apesar da luz ao fundo do túnel, temo muito pelo futuro da nossa economia, dos portugueses e do mundo”.

“Ainda é cedo para celebrar”

Sara Costa, bombeira, fala deste ano com muita emoção no olhar. “Foram situações muito complicadas, porque, para além de todo o aparato de “astronauta”, como diz a minha filha, somos seres humanos. Foram muitos os doentes que acompanhei em ambulância, tentando levar com a maior dignidade, para que tivessem os cuidados o mais rápido possível. Foi muito assustador, mas o que me move diariamente é a adrenalina de chegar ao hospital com os pacientes com vida”, afirmou.
“Não sei o que será o futuro próximo, mas estou exausta. Precisava de tempo para recuperar, mas, agora, é a vez de encaminhar os doentes com outras patologias e essa é a minha missão”.
Ser, ainda mais, resiliente é a palavra de ordem, quando “saturado” é o estado de cada um dos portugueses.
Nuno Sousa, 41 anos, professor de Matemática e Ciências Naturais, lembra que, de um momento para o outro, alunos, professores, famílias foram obrigados a permanecer em casa. É então que surge o ensino à distância, uma nova e desafiante realidade. “A nós, professores, foi-nos pedido para não deixarmos ninguém para trás. Ensinar à distância e conseguirmos chegar a casa de cada um, nem sempre foi tarefa fácil… requereu uma adaptação a vários níveis”. Para si, enquanto professor, um dos grandes desafios do ensino à distância “foi o de criar estímulos constantes de motivação para os alunos, mantendo-os atentos, interessados e sempre de espírito positivo, camuflando, em certa parte, o problema que estamos a vivenciar”.
Contudo, apesar de nem todos os alunos partirem em igualdade para esta nova realidade de ensino à distância, o docente faz um balanço “positivo até ao momento”. “Realço a grande capacidade de adaptação de todos, assim como a autonomia dos alunos, que foi potenciada graças a este processo”. Um ano depois, começam a ver-se melhorias e a administração de vacinas traz renovada esperança. Mas, de uma forma geral, “ainda é cedo para celebrar”.

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