Sociedade

Testemunhos: ser mulher em S. João da Madeira

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Para as mulheres sanjoanense continua a fazer sentido assinalar o Dia Internacional da Mulher, instituído a 8 de março, pela ONU. ‘O Regional’ conversou com cinco mulheres que tiveram e têm papéis importantes na vida da cidade e da comunidade.

Inês Neto: “Este dia da mulher é, e tem que ser, para todas elas”
A história de vida de Inês Neto, consultora imobiliária, não deixa ninguém indiferente e muito menos a força que transmite a quem a rodeia, família ou pessoas por perto. Começou por assumir a ‘O Regional’ que ser mulher em 2021 “vai trazer as mesmas vantagens e desvantagens que nos anos anteriores, e desde sempre”. Recorda que muitas vezes as mulheres são apelidadas de “sobreviventes por quem lhes tem apreço e gratidão”. No seu caso em particular, não se considera nada disso, mas, sim, “uma lutadora desde sempre” e não tem dúvidas de que, se tivesse nascido homem, a sua vida “teria sido mais fácil”. “Resta saber se mais feliz”, questiona.
A vida de Inês Neto nem sempre foi um mar de rosas. No seu caso pessoal, lembra que em 2007 foi um ano que lhe deu do melhor e do pior. Começou com o diagnóstico de uma doença crónica durante a gravidez do seu quarto filho, em fevereiro, passou por um quadro de quase-morte no parto, em junho e, em setembro, “estava a mudar da minha cidade, onde viveríamos felizes, para outra, com quatro filhos, entre os três meses e os sete anos, na decisão mais difícil da minha vida, mas em prol do bem-estar familiar”. Esta mudança  trouxe-lhe enormes alterações e grandes desafios.
Um dos maiores foi, precisamente, ter deixado para trás o seu emprego, a cidade e os “meus, para me dedicar de corpo e alma à família”. Tudo se tornou mais fácil, “porque eu adoro ser mulher, mas, acima de tudo, adoro ser mãe”, enfatiza.
Depois de algumas entrevistas “sem sucesso” prático, surgiu a mediação imobiliária sem esperar. Empurrada pela sua irmã e um amigo, decidiu aventurar-se. “Tenho pena que seja uma profissão menosprezada, muito por falta de legislação no setor. Aqui não há disparidades entre sexos. Trabalhando muito, sendo íntegro, defendendo os clientes, conseguindo colocar-se no lugar deles”. Reforça, que no seu caso, este é um desafio profissional como trabalhadora independente. “É transversal entre sexos, obviamente. A oscilação de faturação pode ser um problema, não havendo estabilidade a nível de receitas”.
A pandemia chegou há um ano, “virou-nos a vida do avesso, tirou-nos muito do que precisamos”. Como se não bastasse, em casa de Inês, no início de setembro, chegou a pior de todas as notícias, aquela que uma mãe ou família não quer. “Um filho com uma doença oncológica, e com ela todas as incertezas”. Com o passar do tempo, com as vivências dos internamentos e da vida passada entre casa e o IPO no Porto, várias coisas solidificaram dentro de si. “Os dias vivem-se, um de cada vez”.
A esperança, a força e o amor que pairam dentro daquelas paredes são inabaláveis. A maioria dos meninos e meninas estão acompanhados pelas mães. Os pais contam-se pelos dedos de uma mão. “Aqui está uma das razões do porquê da mulher ser, na maioria das vezes, o pilar emocional da família. Para outros, é aquela que mais facilmente se vê na obrigação de abdicar da profissão, mais facilmente é substituída na sua função e é profissionalmente descartável”, considera.
Não quer entrar por aí. “Um dos grandes poderes das mulhere  é precisamente o de serem mães. Serem cuidadoras, intuitivas, carinhosas, comunicativas, organizadas, seguras e conseguirem, na maioria das vezes e em situações normais, conciliar a vida pessoal e familiar com a vida profissional”, assume.

Fernanda Moreira: “São dadas mais oportunidades aos homens, sem dúvida”
Para Fernanda Moreira, presidente do Sindicato Nacional dos Profissionais da Indústria e Comércio do Calçado, Malas e Afins, “ainda muita coisa tem que ser alterada” na forma como a mulher é tratada no trabalho, “principalmente na questão dos horários”.
“As empresas ainda não estão recetivas a essa mudança, temos muitas mulheres que precisam dessa flexibilidade e há um impedimento da entidade patronal”, diz, remetendo para “casos em que as mães precisavam de mudar o horário por trabalhar por turnos e há uma grande dificuldade”, acrescentando que depois surgem “ameaças”. “Dizem-lhe que, se não está bem naquele horário, tem sempre a porta aberta”. Se esta sensibilidade para compatibilizar horários de trabalho e familiares existe apenas em patrões homens, Fernanda Moreira responde que, dos casos que conhece, “os patrões realmente são homens”.
Na atual situação, face à pandemia, a responsável refere que “os pais ainda não estão muito recetivos” a ficar em casa a cuidar dos filhos e “acabam por ser as mulheres”. “Não sei se é forçada ou voluntária”, completa.
As oportunidades na carreira profissional, continuam, de certa forma e segundo a dirigente sindical, mais direcionadas para os homens. “Já não existem como há 15 ou 20 anos, mas, apesar da evolução e das mulheres ocuparem cargos de gestão, ainda há dificuldades e são dadas mais oportunidades aos homens, sem dúvida”.
“Não posso dizer que há um assédio laboral puro e duro, mas muitas reações e atitudes de entidades patronais levam a isso”, aponta a dirigente.
Fernanda Moreira partilha com ‘O Regional’ o caso de uma mulher que esteve responsável por um grupo e, com a entrada na empresa de um homem, ficou sem a gestão. Este ficou com o salário maior para fazer o mesmo trabalho e “a trabalhadora não se calou”. “Pediu a nossa ajuda e já estávamos para dar entrada de um processo em tribunal quando a empresa, para dar a volta à situação, mudou a categoria ao homem, mantendo-lhe as funções, mas para justificar o salário mais alto”. Nesse sentido, e por saber que “ia sofrer represálias” a funcionária entrou em acordo e deixou o posto.
“Quando tomam a decisão de se imporem, depois têm de ter uma capacidade muito grande de resistência para assegurar o seu posto de trabalho”, sustenta Fernanda Moreira. Em tribunal, “já tivemos juízas a não dar razão, por incrível que pareça, e já tivemos juízes, homens, a darem razão à trabalhadora”
“Homens que não aceitam que as mulheres ganhem mais” também continuam a existir, segundo indica a dirigente que aconselha as mulheres a não desistirem de reivindicarem os seus direitos, pois a desistência “não resolve o problema” e só “não desistindo e com muito trabalho de sensibilização” é que se pode demonstrar que as mulheres não são “menos capazes”.

Ar­tigo dis­po­nível, em versão in­te­gral, na edição nº 3833 de O Re­gi­onal, pu­bli­cada em 4 de março de 2021.

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