Cultura e Lazer

Partiu o homem que pintou a história da cidade

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Armando Tavares, o artista que pincelou, durante 50 anos, o concelho de S. João da Madeira, morreu aos 89 anos, no passado domingo, dia 21. Homem discreto e pouco dado às luzes da ribalta, deu a conhecer através das cores e do seu traço artístico.

Armando Tavares, o artista que pincelou, durante 50 anos, o concelho de S. João da Madeira, morreu aos 89 anos, no passado domingo, dia 21. Homem discreto e pouco dado às luzes da ribalta, deu a conhecer através das cores e do seu traço artístico a história deste concelho, que o inspirou sempre a pintar. Pelos seus quadros era possível viajar pelas tradições, pessoas, história, edifícios emblemáticos, e é possível denotar a evolução social, cultural, e até industrial, de S. João da Madeira.

Em fevereiro de 2019, numa entrevista a ‘O Regional’, Armando Tavares de Almeida (1931-2021) assumia que, apesar da sua idade, ainda tinha muito para fazer, mas pouco para dizer. Recordou que na infância foi ele que construiu os seus próprios brinquedos, que a vida nunca lhe tinha sido fácil, e que dificilmente pronunciava o nome dos seus pais, uma vez que nunca os tinha conhecido.
Armando Tavares era um homem sereno. De sorriso tímido, mas delicado. Sonhou e lutou sempre pelos objetivos e valores. Tornou-se um homem sozinho, mas nunca desistiu ou virou a cara à luta. Trabalhou de sol a sol e assumia que se orgulhava do caminho traçado.
Foi muito mais do que um empresário de calçado. Dizia que, ao longo da sua vida, teve um “casamento perfeito”, desde o serviço militar, com a pintura, e a dada altura da sua vida até perdeu a conta aos quadros que pintou, vendeu ou ofereceu. Acérrimo crítico do seu trabalho, estava, em 2019, a pintar vários quadros para oferecer a S. João da Madeira, que retratam a história desta cidade.
Sempre que falava dos seus quadros, era visível o orgulho que sentia na sua obra e referia, em jeito de graça, que se questionava, muitas vezes, se “fui eu que pintei determinados quadros”. Muitos revelavam a história de S. João da Madeira e serviam também de “alerta” para que os mais jovens perceberem as dificuldades desses tempos, pois era sua opinião que a maioria deles desconhecia o sofrimento destas pessoas. “Não foram rosas - eram mesmo espinhos - e eu conheci muita gente, desses, muitos andavam a pedir”, dizia-nos.
O empresário e pintor nunca escondeu que S. João da Madeira foi sempre, para si, uma “fonte de grande inspiração”. “Eu conheci muita gente que hoje está retratada nos meus quadros. Tenho muitos quadros de heróis sem nome, que tanto trabalharam, deram de si, para que S. João da Madeira fosse aquilo que é hoje, e destaco ainda um quadro de homenagem ao escritor João da Silva Correia”, assumia nessa altura a ‘O Regional’.
A sua vida como empresário foi uma batalha “muito intensa” e que durou muitos anos, um passado de muito trabalho, onde chegou a ter um horário de 20 horas por dia. “Trabalhava sábados e domingos”. Armando queria que a sua empresa fosse como uma orquestra. “Chegar às oito horas e não existirem perguntas, mas só respostas”.

“Um artista, homem sensível e um dos últimos gentlemen”
Quem o conheceu, descrevia-o como um artista, um homem sensível e um dos últimos gentlemen ainda existentes. Mais do que um homem de ação, foi sempre um gestor de sensibilidades. Retratou com amor vários momentos e locais do nosso concelho, ilustrando vários álbuns da nossa vida.
O artista plástico, que soube apoiar muitas causas, ofereceu inúmeras obras para que fossem leiloadas em benefício da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira. A sua arte também está patente em vários locais, como no interior da Esquadra da PSP de S. João da Madeira. “Existe ali, na entrada, logo um antagonismo que coloca a pensar quem ali chega, quando olha para a pintura, porque existe sempre uma distância entre a polícia e o cidadão, e isso não é fácil trazer e traduzir em pintura, pois a mensagem pela imagem conseguida é uma forma mais atrativa. Desenhei ali um coração dividido com as duas mãos. E a grande mensagem que deixo é que, se existir equilíbrio das duas partes, está tudo resolvido”, assumia.
Armando Tavares morreu, no último domingo, mas as obras do pintor, antiquário e industrial de calçado viverão eternamente.

“Não faz sentido mostrar o nosso apreço depois de mortos”
A autarquia já manifestou o seu “profundo pesar” pelo falecimento do pintor sanjoanense. “Os seus quadros representam, de forma única, os momentos e locais marcantes da história do nosso concelho, ao longo do século XX, retratando as suas tradições, os seus edifícios emblemáticos e a sua evolução social, cultural e industrial”. Refere ainda que, para além da sua atividade como artista plástico, “destacou-se também pelo seu envolvimento associativo, nomeadamente nos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira”. A autarquia, lamentando a perda de Armando Tavares, enalteceu a forma como soube servir S. João da Madeira e “gravar na tela um retrato do concelho que perdurará no tempo”.
No entanto, Ana Couto, munícipe sanjoanense, dizia na última Assembleia Municipal, que se realizou dia 18, “lamentar profundamente que o pintor Armando Tavares, que tão bem pintou os sanjoanenses e a cidade, não tenha tido até ao momento o reconhecimento merecido’’. “Que importam demonstrações de carinho quando já não privamos neste mundo?”, questionou. A cidadã disse ainda que a câmara deveria fazer também “uma homenagem pública ao sanjoanense Adé [ndr: entretanto, já falecido a 23/02 e cujo obituário se encontra na página 11 deste jornal], enquanto ele pode assistir. Não faz sentido mostrar o nosso apreço, carinho, a cidadãos depois de mortos”, rematou.
Jorge Vultos Sequeira respondeu afirmando que “existe espaço na cidade para os artistas sanjoanenses exporem”, dando como exemplo a galeria dos Paços da Cultura, a Biblioteca e assegurou que “não está excluída a possibilidade de artistas locais integrarem o programa dispositivo do Centro de Arte da Oliva”.

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