Desporto

Aos 97 anos Sanjoanense resiste no tempo e com esperança num futuro melhor

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A 25 de fevereiro, a Associação Desportiva Sanjoanense celebrou 97 anos. Em entrevista, Luís Vargas Cruz, presidente há 12 anos, mostra orgulho na história e palmarés do clube, que mantém por princípio base o ecletismo e igualdade de género.

Esta quinta-feira, 25 de fevereiro, a Associação Desportiva Sanjoanense (ADS) celebra 97 anos. Um histórico do desporto nacional, com muitas histórias e títulos, que vai resistindo com o seu princípio base de ecletismo e igualdade de género. Em ano de crise pandémica o clube enfrenta o futuro com esperança, apesar de todas as dificuldades que a covid-19 veio acrescentar. Sem atirar a toalha ao chão, os seus dirigentes continuam a lutar para manter o clube vivo, cumprindo com os compromissos assumidos e não deixando de tentar melhorar os seus equipamentos desportivos. O pavilhão, que completou 61 anos este mês, foi já alvo de uma candidatura para requalificação da parede sul, de forma a corrigir as muitas infiltrações que ali existem.

Fundada dois anos antes de S. João da Madeira ser concelho, a AD Sanjoanense foi das primeiras coletividades portuguesas a ter um pavilhão coberto, em 1960, fruto do empreendedorismo dos seus adeptos, que através de contribuições deram asas a um sonho que se tornou realidade.

Luís Vargas Cruz - Presidente da Direção da ADS

Luís Vargas Cruz é o presidente da direção há 12 anos e mostra orgulho na história e palmarés do clube. Assinala o ecletismo e dá nota do esforço para estabilizar financeiramente a instituição, sem perder o foco nos projetos para o futuro.

O Regional - A caminho do centenário a ADS prima por ser fiel ao seu ecletismo, sem esquecer o passado. O que mais destaca da história do clube?

Luís Vargas Cruz - Estou à frente dos destinos da Sanjoanense há pouco mais de uma década. Desde que estou na liderança, tenho sido fiel, juntamente com a equipa que me acompanha, ao facto de manter o ecletismo, bem como a igualdade de género. Temos muitas equipas masculinas em todos os escalões e modalidades, mas de igual forma no feminino, com exceção para o futebol. Esse é um sonho do clube, mas que por força das circunstâncias atuais teve de ser adiado o seu arranque. Já em relação à história e ao palmarés do clube, a Taça das Taças em hóquei em patins, alcançada em 1986, é o expoente máximo em troféus. No futebol, fomos campeões nacionais da 2ª divisão, competimos no principal campeonato, e formamos jogadores de referência nacional, como António Sousa, António Veloso, Secretário, Vermelhinho, Ricardo Sousa, entre muitos outros. Mais recentemente contribuímos na formação de atletas como o Gil Dias, Xadas, David Carmo, ou o próprio Paulinho que esteve em Inglaterra e que agora regressou ao clube que o viu nascer para o futebol. Nas outras modalidades, para além dos títulos de campeões nacionais da 2ª divisão, ou até da Taça de Portugal em hóquei em patins feminino, também tivemos atletas internacionais. No basquetebol o falecido Paulo Pinto e a Inês Viana são dois exemplos de referência, mas andebol e hóquei, modalidades em que o clube está na 1ª divisão, os plantéis contam com muitos atletas oriundos da formação.

Clube está a ultimar candidatura ao PRID para requalificação da parede sul do pavilhão

R - Para lá dos títulos e da formação de atletas, nestes 97 anos o clube foi dos primeiros na região a ter um estádio com campo de futebol relvado e um pavilhão coberto. Manter as infraestruturas é uma das prioridades?

LVC – É com muito orgulho que o clube mantém as próprias infraestruturas. O pavilhão, que completou 61 anos no passado dia 13 de fevereiro, foi o primeiro na zona norte pertencente a um clube. Este equipamento é fruto do contributo dos sócios, quer com mão-de-obra, quer com material. Agora, e seis décadas depois, mesmo depois de alguns melhoramentos, como a substituição do piso ou a iluminação, apresenta algumas anomalias. Nesse sentido, concorremos em 2019 a um programa do IPDJ, para requalificação dos nossos balneários, mas não conseguimos que fosse aprovado. Mas, não desistimos, e estamos já na fase de apresentação de uma terceira candidatura para a requalificação da parede sul do pavilhão, que estava a provocar muitas infiltrações. Trata-se de uma candidatura ao programa do Plano de Requalificação de Infraestruturas Desportivas (PRID), também da responsabilidade do IPDJ. Estamos a ultimar o processo, mas recordo que este programa não cobre a totalidade da verba necessária. Em caso de aprovação, só será disponibilizada 50% da verba. Depois temos de arranjar a verba restante, no entanto, não deixa de ser uma grande ajuda. Informalmente já apresentamos, no âmbito do contrato-programa a hipótese de a Câmara Municipal nos vir a ajudar nesta obra. Aos poucos vamos tentando reabilitar as nossas infraestruturas, e nesse sentido, o estádio não está posto de parte, mas temos de dar tempo, coordenando com o aspeto financeiro, até porque a situação é algo complicada.

Parede sul do Pavilhão da Sanjoanense

R – Com a pandemia o clube começou a sentir falta de apoios financeiros?

LVC – Há falta de apoios, uma grande redução nos patrocinadores, alguns deles também a atravessarem dificuldades com as suas empresas encerradas e sem volume de negócio. Nestes casos, nem temos moral para lhes pedir o que quer que seja. Diminuiu também o valor da quotização de atletas de formação, que também era uma boa fonte de receita, e agora é praticamente inexistente. Ao nível dos sócios, também tivemos uma redução das quotas. Não havendo público nos jogos, os sócios deixam de pagar, embora o nosso esforço tenha sido sempre no sentido de transmitir os jogos das equipas, quase na sua globalidade, para que possam acompanhar. Mas, ainda há sócios que não concebem este tipo de situação, e provavelmente só vão regularizar a sua situação caso volte a ser possível o regresso do público. Atualmente, limitámo-nos ao subsídio camarário, que tem mantido a sustentabilidade do clube. Felizmente não diminuíram o apoio, apesar de não haver tanta competição. Mas, com a falta da competição, os possíveis títulos das equipas de formação, que acrescentavam um prémio de desempenho, não vão acontecer. Estamos a falar de alguns milhares de euros. No entanto, em sentido contrário, a despesa também diminuiu, pois deixaram de se pagar taxas de jogos e de arbitragem nos jogos de formação.

R – Apesar da diminuição da despesa, os encargos mantêm-se até ao final da época. Como é que está a ser feita essa gestão?

LVC - As inscrições dos atletas de todas as modalidades e dos respetivos seguros, bem como as taxas de jogo, de arbitragem, as deslocações, a alimentação nos jogos fora, os subsídios de deslocação aos atletas e treinadores nos treinos, a fatura da água, da luz e do gás, os funcionários do clube, continuam a ter que ser pagas. Mas, estamos cá enquanto for possível suportar este “barco”. Acredito que, numa fase do pós-covid, iremos recuperar muitos sócios e que vão dar valor ao trabalho que tem vindo a ser efetuado.

Sem apoio por parte das federações, Luís Vargas Cruz fala numa “machadada muito grande”, tendo em consideração a falta de receita

R – E da parte das federações tem havido alguma compreensão ou contemplação pelas dificuldades financeiras dos clubes?

LVC - Essa é uma das críticas que eu faço a todas as federações. Os clubes não tendo público, nem receita, nem grandes fontes de publicidade, não se justifica que as taxas de jogo se mantenham. Estamos a falar em verbas a rondar os mil euros por jogo. Infelizmente, as federações não entendem isto, e começa a tornar-se insustentável. Já fiz chegar o meu reparo a todas as federações. Era necessário encontrar uma plataforma de entendimento para que os clubes pudessem pagar esta época, nos próximos dois ou três anos, repartindo os custos de arbitragem. Mas, infelizmente estão irredutíveis, e não sei até que ponto os clubes vão aguentar. Esta é uma machadada muito grande, uma vez que não há qualquer receita.

Estádio Conde Dias Garcia

R – E os direitos de transmissão televisiva?

LVC – As federações detêm direitos exclusivos de televisão, sendo que as receitas não chegam aos clubes. No mínimo, poderiam distribuir para ajudar, mas isso não acontece. Se fizessem, como antes fazia a Federação de Patinagem - em que, cada vez que um jogo era transmitido, o clube visitado não liquidava a taxa de jogo, que rondava os 800 euros... e, nessa altura havia receita de público. Agora não há, nem sequer há essa sensibilidade, justificando-se que têm os seus encargos, mas esquecem-se que nós também os temos. A taxa de arbitragem ainda se justifica, mas a taxa de organização do jogo, não entendo, até porque somos nós que temos de pagar à polícia e toda a logística que envolva o jogo.

R – Com a pandemia, para lá das quebras financeiras, a questão desportiva tem sido bastante afetada. Como é que se contornam as questões logísticas de preparação dos jogos e das deslocações?

LVC – Com o covid-19, isto tem sido de loucos. Constantes alterações de jogos, em cima da hora, devido a casos positivos. Por vezes, já com viagens marcadas, somos obrigados a desmarcar tudo. Mas, felizmente, temos tido o apoio da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia, esta última, que nos tem apoiado nas deslocações com a cedência do autocarro, permitindo transportar todo o staff com o devido distanciamento social. A isto, junta-se o problema da alimentação, que, se não fossem os meus vice-presidentes das secções, não sei como iríamos ultrapassar. Particularmente, eles cozinham ou organizam a comida já para a viagem, numa logística que não deixa de ser bastante complicada, e que indiretamente também mexe um pouco com a parte desportiva.

“O desporto não é uma atividade significativa para o Estado português. Mas, quando há títulos, são os primeiros a virem condecorá-los”

R - O Estado tem apoiado convenientemente o desporto?

LVC - Essa é uma crítica que já fiz há alguns anos. As federações e a Secretaria de Estado do Desporto não dão o apoio que deveriam dar. O desporto é considerado como uma atividade que não é significativa para o Estado português. Mas, quando os títulos acontecem, são os primeiros a virem condecorá-los.

Estamos a falar em milhares de atletas e de clubes desportivos que, todos os fins-de-semana, davam vida às cidades, promovendo também a circulação da economia. E, nós, temos aqui o exemplo do Andebolmania, que é o reflexo dessa situação.

Infelizmente, não se dá o devido respeito ao desporto. Senão vejamos: uma criança que pratica desporto dificilmente irá ter obesidade, dificilmente irá contrair diabetes, dificilmente envergará por outros caminhos menos desejados. Tudo isso, significa dinheiro para o Estado, pelo facto de estar a investir na prevenção. Deveria ser dado valor a todas as instituições desportivas que contribuem para a melhoria da saúde dos jovens.

R - Para já, a formação não está a treinar, no entanto, no início da época tudo foi preparado a pensar na retoma. O trabalho dos treinadores na preparação dos treinos teve de ser repensado?

LVC – Sou obrigado a ter de fazer um agradecimento aos treinadores, que durante semanas tiveram de preparar treinos individuais na impossibilidade de fazerem treinos de conjunto. No entanto, esse trabalho não teve continuidade. Atualmente, estas gerações mais jovens estão a sofrer com estas restrições. E, quando o regresso for possível, acredito que dificilmente muitos dos atletas o façam. As crianças acomodaram-se a uma vida sedentária, com as novas tecnologias à mão, e torna-se difícil voltar a motivá-los para enfrentar a chuva e o frio. Eu prevejo que há aqui uma geração que se vai perder.

R – Em números, quantos atletas é que a Sanjoanense perdeu desde o primeiro confinamento?

LVC – Estávamos no auge em número de praticantes, com 1277 atletas divididos por todas as modalidades do clube, mas a perda foi evidente. Em setembro já só foram inscritos cerca de mil atletas, e sem treinos e competição não sei como vai ser o que resta desta época, até porque daquilo que verificamos, a nível de formação, acredito que já deve estar encerrada. Para terem uma ideia, do quanto a Sanjoanense movimenta, até 15 de fevereiro de 2020, o clube tinha disputado 797 partidas em todas as modalidades. Até 15 de fevereiro de 2021, apenas se realizaram 91 jogos. Percebo que não haja competição, mas a retoma da prática desportiva seria importante. Porque a não acontecer esse cenário, julgo que todo o trabalho de captação que foi feito nas escolas vai perder-se. Mas, vamos ter de recuperar essa fonte de alimentação das modalidades.

“Em 12 anos, a dívida diminuiu de 1,5 milhões para 300 mil euros”

R – Esta é uma das piores fases que o clube já viveu em termos financeiros?

LVC - É uma fase difícil, mas recordo que quando aqui chegámos, há 12 anos atrás, o clube tinha uma dívida de 1, 5 milhões de euros. A situação era muito difícil, até porque a Sanjoanense tinha muitos credores. Passados todos estes anos, orgulho-me, juntamente com a minha equipa, de termos baixado o passivo para 300 mil euros. Fizemos um trabalho de recuperação do clube ao nível de credibilização junto dos fornecedores, Autoridade Tributária e Segurança Social, bem como junto de antigos presidentes que são credores, mas com os quais chegámos a acordo. Se este trabalho não tivesse sido feito, o clube era obrigado a fechar portas. A situação atual é difícil, mas nada que se compare com a de há 12 anos. Temos vindo a regularizar o passivo, mas que está centrado, em cerca de 90%, em três ou quatro antigos dirigentes. Tenho a perceção que o clube criou bases mais sólidas para enfrentar este turbilhão. No entanto, temos a consciência que se não fosse a receita proveniente do contrato-programa camarário. Sem isso, não havia sobrevivência possível.

R – Este ano poderia ser de ouro para o clube, com masculinos e uma femininos na 1ª divisão de hóquei em patins, algo que já não acontecia há muitos anos, bem como o regresso a uma competição europeia. Mesmo com a pandemia, não estavam reunidas condições para a equipa de hóquei em patins disputar essa prova?

LVC – É verdade. No entanto, acabamos por abdicar dessa possibilidade, porque os moldes em que se irá realizar a competição é, para nós, impensável. Refira-se que só seis equipas é que irão competir, sendo a maioria espanholas e com a prova a realizar-se em quatro dias no país vizinho. Financeiramente era incomportável, mas além disso não encontramos verdade desportiva neste sistema. Disputar uma taça europeia com apenas seis clubes, não passa de um torneio. Tínhamos muito orgulho em estar presentes mas, também, atendendo às questões de saúde, não somos favoráveis. Há que evitar tudo que seja fator de risco.

R - A Câmara tinha uma verba atribuída para a participação nas competições europeias, que não será utilizada. Já ponderaram canalizá-la, por exemplo, para a intervenção da parede sul do pavilhão?

LVC – Quando tomamos a decisão de não participar transmitimos à Câmara. É uma decisão recente e não falamos sobre essa possibilidade. Mas, acreditamos que possa vir a acontecer. É uma situação que ainda não foi devidamente conversada.

R – Quais as perspetivas para o futuro, numa altura em que o clube está próximo do centenário?

LVC – O clube está focado em chegar aos 100 anos. Agora temos pela frente a recuperação do número de atletas, condizente com o estatuto de clube eclético e de igualdade de género. Depois de tanto trabalho que fizemos nestes últimos 12 anos, e de tanta história que o clube alberga, atirar a toalha ao chão não nos passa pela cabeça. Esperança num futuro melhor é a palavra de ordem.


As comemorações dos 97 anos do clube vão ser restringidas apenas à via digital. No dia 25 de fevereiro decorrerá o tradicional hastear das bandeiras, no Pavilhão dos Desportos, que será transmitido nas redes sociais do clube. Irá também realizar-se uma missa pela alma de antigos atletas, treinadores, dirigentes e associados, que também será apenas online.

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