Sociedade

“Tornou-se muito difícil evitar a infeção”  

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Luís Vitorino Soares, diretor clínico da Misericórdia de S. João da Madeira, não esconde a preocupação relativamente à evolução do vírus da covid-19.

Jornal ‘O Regional’ - Como sabemos, o vírus da covid-19 está com uma grande agressividade na região e no país. Qual é o ponto da situação de casos positivos da doença nas valências da Misericórdia?
Luís Vitorino Soares - É um facto que o impacto da covid-19 está a tornar-se incontrolável em Portugal e no mundo. A Misericórdia está inserida na comunidade e, por isso, dificilmente deixaria de ter casos. Tanto quanto sei, a direção da instituição vem dispensando comunicados à imprensa com regularidade para dar conta da situação.

Até ao momento, quantos casos ativos existem, recuperados e mortes na instituição?
Os casos positivos ativos são cerca de 85 entre os utentes, que se encontram no geral estáveis, a maior parte assintomáticos, e uma pequena parte com sintomas ligeiros. Todavia, nesta doença, de um momento para o outro, mesmo um doente assintomático pode tornar-se em caso grave. O número de casos ativos tenderá a estabilizar e depois a baixar, à medida que forem sendo feitos testes de cura. Que, como sabe, só acontecem 10 a 14 dias após a deteção da infeção.

Como diretor clínico da Unidade de Cuidados Continuados e médico assistente no Lar de Idosos São Manuel, ambos equipamentos da Misericórdia, que explicação encontra para este elevado surto de casos positivos depois de dez meses sem infeções nestes equipamentos?
No dia 7 de março de 2020, foi formada uma equipa para criar um plano de contingência, no sentido de evitar a possibilidade de contágio e de transmissão. Em 11 de março de 2020, estavam tomadas todas as medidas divulgadas pela Direção-geral da Saúde e passou-se à sensibilização e formação de utentes e funcionários para os riscos pandémicos. Também se adquiriram equipamentos de proteção individual e foi ensinado o seu uso. As regras foram cumpridas.

Foram ainda tomadas outras medidas, como a proibição de visitas de familiares, numa primeira fase...
É verdade. Com o decorrer e progressão da pandemia, ajustaram-se outros procedimentos, por exemplo, a entrada no refeitório passou a fazer-se por grupos de pessoas, isto é, quando um grupo termina a refeição, entra o outro. Foram transformadas salas de lazer e animação para receber covid, recuando a animação sociocultural que era habitual.

O que poderá ter falhado?
Falhou a comunidade. O concelho de S. João da Madeira passou a ser de risco extremamente elevado, tal como os concelhos à volta. Tornou-se muito difícil evitar a infeção.

“Estamos a estabilizar os números de novos casos”

Como tem sido o dia-a-dia na Misericórdia nos últimos meses?
Do ponto de vista das rotinas, mantém-se igual, embora com maior densidade de casos diários a acompanhar. De manhã, a equipa reúne-se para avaliar os doentes, o grupo das ajudantes de ação direta realiza os cuidados de higiene, conforto e alimentação, e alertam para sinais e sintomas, que reportam à enfermagem. Que, por sua vez, na sua avaliação, faz a triagem para o médico.

Tem atrás de si uma longa carreira profissional. Parece-lhe estar próximo o debelar do problema nestes equipamentos ou, na sua opinião, assistiremos a um prolongar no tempo de novos diagnósticos e o avolumar do número de casos?
Como disse anteriormente, estamos a estabilizar os números de novos casos, que depois vão baixar. É sempre um processo, que leva o seu tempo.

Já recebeu alguma informação relativamente ao processo de vacinação dos utentes destes equipamentos, uma vez que existem idosos em Portugal a serem já vacinados em lares? Existe alguma previsão?
Com o surto em curso, prevemos que a vacinação para nós passe para a segunda fase.

Quantas vacinas vão ser necessárias para a Misericórdia?
Depende do tipo de vacinas, algumas são para aplicar a 2.ª dose, mas serão cerca de 500, isto se falarmos apenas de uma dose.

De que forma tem sido feita a articulação entre a instituição e as famílias dos utentes?
A comunicação com familiares é feita pelos técnicos da Misericórdia, com periodicidade regular, em muitos casos diariamente.

Que comentário lhe merecem os critérios e o processo de vacinação. Deveriam os idosos internados ter sido os primeiros a receber a vacina?
Quanto ao processo de vacinação estamos de acordo com a seleção dos lares de idosos para a primeira fase de vacinação. O impacto da covid-19 (morbilidade, letalidade) é maior nos idosos e grave quando são portadores de doenças crónicas, como doenças cardiovasculares, respiratórias ou diabetes.
Os critérios para a seleção dos lares são pertencer a um concelho de alto risco, ser um lar com alta densidade de utentes, não haver penetração do vírus.

Mas no seu entender estes critérios são os mais adequados?
Entendo que sim. No cômputo geral, e no meu entender, os idosos com mais de 80 anos não institucionalizados também deveriam integrar a primeira fase de vacinação. Penso que este critério deveria ser alterado, pois a letalidade por covid-19 acima dos 80 anos é hoje de 13,6%.

Olhando à sua experiência profissional no setor social, quais são as maiores dificuldades que identifica no controlo da infeção covid-19 por parte das unidades de saúde e assistenciais deste setor?
A inexistência de médico a tempo inteiro ou, pelo menos, diariamente, é a maior dificuldade. Nos lares de idosos esta dificuldade agrava-se com o facto de não ser obrigatório existir enfermagem diariamente. O que, todavia, não se aplica na Misericórdia, pois esta garante a presença de um enfermeiro todos os dias.

“O futuro que nos espera é incerto e está a causar medo a todo o mundo”

A opção pelo não-internamento num hospital pode explicar parte das mortes por covid-19 nos lares de idosos na Misericórdia e em Portugal?
Os falecimentos têm ocorrido quase todos em hospital. Não existe a opção por “não-internamento”.  Se o doente precisa, porque agudiza a condição, é enviado para o hospital de referência. A transferência depende apenas do estado do doente.

Está visto então que a covid-19 não é como uma simples gripe…
A gripe e a covid-19 são doenças respiratórias: têm sintomas semelhantes e são contagiosas. O período do contágio para a gripe é de cerca de sete dias e para o covid é de dez dias, sendo o coronavírus mais grave sobretudo para os idosos. O seu tratamento é dirigido aos sinais e sintomas da doença, não existe tratamento aprovado para o vírus.

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