Sociedade

“Sou a Paulinha de Arrifana, com muito gosto”

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A Paulinha de Arrifana, como é conhecida, desafiou o preconceito de uma sociedade conservadora ainda a transexualidade era tema tabu.

Jornal O Regional - Preferes que te trate por Paulinho ou Paulinha?
Paula Santos – Eu sou mais conhecida por Paulinha. É assim que as pessoas me tratam, e eu prefiro também.

Continuas a não querer revelar a tua idade?
Não se pergunta a idade a uma senhora (risos). A idade não me assusta. Fiz dia 13 de setembro 46 anos.

Que diferenças existem entre o Paulo Santos e a Paulinha?
Nenhuma. Somos a mesma pessoa. Na verdade, eu gostava de ter nascido mulher. Mas, como nasci homem, acabei por aceitar e não tenho qualquer complexo por isso. Aceito o corpo que tenho, o nome, e o Paulo e a Paulinha combinam na perfeição, porque são apenas uma.

Com que idade te apercebeste que eras diferente?
Desde sempre. A determinada altura, a professora chamou os meus pais à escola e alertou-os que eu não era muito de brincar com os rapazes, mas sim com as raparigas. Na opinião das minhas professoras, este meu gosto era uma doença, que teria de ser tratada por especialistas. Santa ignorância (risos). E, já nessa altura, eu disse aos meus pais que não tinha doença nenhuma. Eu nasci com corpo de homem, mas sempre me senti mulher. Sempre gostei de brincar com as meninas, porque também brincava com as minhas irmãs em casa. Eu, na verdade, não tinha culpa de ser assim.

Mas os teus pais achavam que se tivesses um irmão homem serias diferente?
A mentalidade deles era essa, mas eu disse-lhes sempre que não ia mudar nada, pois senti sempre o meu corpo diferente. Nunca senti qualquer atração por uma rapariga. Nunca fiz questão de namorar com uma mulher, porque o meu corpo não tinha esse desejo.

Ao longo da vida, os teus amigos foram mais mulheres ou homens?
Tive sempre amigos homens e mulheres. Quando se tratava de sair à noite eram sempre elas que me acompanhavam mais. E até elas se lamentavam por eu ter nascido homem. Diziam-me que eu tinha mais postura do que muitas mulheres. Desde a colocação das mãos, o andar, o cruzar as pernas e o meu corpo. Mas a resposta que eu dava era sempre a mesma: eu sou uma mulher, mas num corpo de homem. E quando saio de casa para me divertir vou vestida de mulher.

Mas gostavas da tua imagem quando te vias no espelho?
Adorava. Por vezes até dizia: bolas, estás toda boa Paulinha (risos). Eu maquilhava-me a rigor, salto alto, vestido, cabeleira. Uma verdadeira miss.

É nessa altura que começas a trabalhar em casas noturnas?
Sim. Agora já não, devido à pandemia. Mas eu até peitos falsos colocava. Era uma mulher completamente transformada. Eu ficava uma brasa. Ninguém dizia que eu era um homem. Mas eu fazia questão de ser assim. Tinha de baralhar quem me via. Tinham que ficar na dúvida se eu era ela ou ele.

“Fazia-me de surdo e mudo na rua”

São poucos aqueles que não te conhecem, principalmente pelos passeios que fazes entre Arrifana e S. João da Madeira. Sentes que as pessoas gostam de ti e aprenderam com o tempo a respeitar-te, ou muitas ainda te olham com preconceito?
Muitos já não ligam, respeitam-me, mas, infelizmente, ainda há quem não me aceite como sou. Mas acho que vai ser sempre assim. Nós não mudamos comportamentos nem mentalidades. Muitas vezes, são assim porque têm na família alguém que gostava de ser como eu, e é uma forma de os proteger, tentando desviar as atenções para os outros. Por vezes, é curioso ver o comportamento das crianças. Ficam a olhar para mim na incerteza se serei homem ou mulher. E, se dizem alguma coisa, os pais ainda repreendem as crianças. Isso eu não permito. Meto-me logo e digo que os meninos não entendem isso e não me estão a faltar ao respeito.

Ainda há quem não aceite, é isso?
Exatamente, e mais até as mulheres. Passam por mim e até me fazem peito. Parecem que têm ciúmes meus, e diria mesmo alguma inveja, porque em algumas coisas queriam ser como eu e não conseguiram. Ou, então, devem pensar que lhes quero roubar os maridos (risos).

Nasceste num corpo de homem, mas sempre te sentiste uma mulher. Ainda hoje é difícil conviver com isto?
Agora lido muito bem com a situação. Depois de ter sido tão humilhado, criticado, a solução que eu encontrei foi ignorar e dar desprezo a essas pessoas. Quem importa, na verdade, sou eu. Eu é que sou a mais importante de todas e não tinha vergonha do que era e de como era.

Como dás a volta a isso?
Entre várias coisas fazia-me de surdo e mudo na rua. Quando as pessoas me diziam que eu era assim devido a uma doença, aí é que  não aguentava e espetava uma valente gargalhada.

Viveste toda a vida acorrentada a um corpo de homem. O que te deu força para chegares até aqui?
Foi aceitar-me como sou, respeitar-me, e ter apoio, principalmente das minhas irmãs que sempre me defenderam. Sofri várias humilhações em público e isso, muitas vezes, deixou-me caída. Fiquei sem forças e até cheguei a pensar o pior, e pensei desistir de tudo. Mas, rapidamente, pensava: “Então, Paulinha, que se passa contigo? Arrebita mulher! A vida é tua, as pessoas querem é que tu te escondas”. E foi aí que a Paulinha mudou por completo.

Mudou, como assim?
Eu só me vestia de mulher à noite quando saía. Passei a pintar-me durante o dia, a vestir de mulher, colocar cabeleiras e extensões. Uma verdadeira senhora, era assim que eu era feliz. Disse inclusivamente à minha mãe que se tivesse que passar por cima da sociedade, eu passava. Nada como sermos nós. Seja no que for. Verdadeiros. Independentemente do que dizem os outros.

Mas, na verdade, a tua mãe, quando eras criança, chegou mesmo a levar-te ao médico, e ele disse-lhe que tu eras diferente das outras crianças.  Como é que a tua família aceitou, nessa altura, esta tua diferença?
Não foi fácil. Ainda hoje o meu pai não aceita. Eu entendo a posição dele. Não o condeno. Sei aquilo que ele sofreu, com o comentário das pessoas a meu respeito. Mas sempre foi um bom pai. A minha mãe aceitava e não aceitava. Acho que acabou mesmo por desistir. As minhas irmãs foram sempre o meu grande pilar.

“Eu sou a alegria do povo”

O facto de seres oriundo de uma família católica, já que o teu pai era sacristão na igreja, tornou ainda mais difícil lidar com o facto de ter um filho transexual?
Também teve um grande peso. Mas o pior eram os comentários negativos que ele recebia por parte das pessoas, e ficava envergonhado, pois vinha de famílias muito tradicionais, humildes, conservadores, pessoas ligadas à igreja e com outra mentalidade. Acho que nem sabiam o que era um transexual. Para eles eu era mesmo “paneleiro”, e isso era uma nódoa negra na família. Tanto é que eu, quando me vestia para ir à noite trabalhar, cruzava-me com uma vizinha que não me reconhecia. E a minha mãe tinha vergonha de dizer que era eu. Depois eu é que lhe contei a verdade. Deixei de me esconder. Disse onde trabalhava ao fim de semana. Assumi ali a minha felicidade.

Mas investias muito na imagem de mulher?
Muito mesmo. Tudo o que eu ganhava ao fim de semana investia em cabeleiras, vestidos, sapatos, malas...

Desde a tua infância que sabias que eras diferente das outras crianças, mas ninguém te explicava porquê?
Insistiam em dizer que era uma doença e que eu tinha que ser tratada. Santa ignorância. Nasci num corpo errado, não tinha nem tenho culpa disso. A minha mãe comprava-me roupas de homem e eu nunca queria. Eu usava-as para lhe fazer a vontade. Comecei a ter barba só depois dos 30 anos. Era uma questão de hormonas mais femininas do que masculinas. Por isso, sempre me senti mulher. Alguma coisa falhou na gestação, acho eu.

Como foi a tua infância?
Sei lá bem, foi um pouco de tudo. Apesar de não me aceitarem, tenho uns pais maravilhosos, que sempre quiseram o meu bem. Eu entendo isso e lamento muito tudo aquilo que eles passaram por minha causa. Eu brincava muito com uma prima que me compreendia e aceitava como eu era. Foi uma infância com coisas boas e outras menos boas. Não gosto de pensar no passado, no sofrimento. Passou.

“Muitas pessoas não se assumem com receio da sociedade”

Nessa altura vestias as roupas que a tua mãe te comprava, para rapaz. Mas sempre que podias vestias as roupas da tua irmã mais nova…
Tenho uma história muito engraçada com a minha irmã mais velha, a Cristina, que ficou danada comigo na altura, porque usei o vestido de noiva dela numa passagem de ano sem ela saber (risos). Foi a loucura. Fui para o Casino de Espinho. Azar dos azares estava lá uma televisão e eu apareci num telejornal e toda a gente me viu. Fui apanhada (risos).

No fundo, consideras-te uma pessoa divertida e bem-disposta?
Eu sou a alegria do povo. Adoro um bom convívio, adoro divertir-me, dar umas boas gargalhadas. Tenho um espírito bem-disposto. Viver. Adoro viver. Mas também tenho os meus dias maus. Mas isso ficam logo a saber quando me levanto (risos).

Os estudos ficaram só pela 3.º classe. Não gostavas de estudar, ou já aí sentias que os colegas não te apoiavam?
Larguei os estudos porque decidi ir trabalhar. Nem foi uma questão de ser ou não apoiado. Queria trabalhar. Ajudar a família e ter, de alguma forma, a minha independência. Mais tarde, e numa altura em que estava no desemprego, fiz um curso no IEFP e tirei lá o 9.º ano.

Quem te conhece, reconhece-te a coragem e lamenta o sofrimento por que passaste. Consideras-te uma pessoa corajosa?
Eu tive que ter essa coragem. Sempre disse que tinha que dar o meu melhor para ser feliz. Na verdade, estou a dar o exemplo para muitas pessoas. Entendo que muitas pessoas não assumam a sua identidade de género ou orientação sexual com receio da sociedade. Nunca vão ser felizes. Vivemos numa região em que se me virem no carro de alguém já estão a pensar que ando a fazer asneiras. Fica em causa também a pessoa que me está a dar boleia, seja homem ou mulher.

“Nunca senti necessidade de sair da terra onde nasci”

Mas foste muitas vezes maltratado e enganado?
Claro que sim. Existem sempre segundas intenções em muita coisa. É passado. O que conta é o presente e o futuro. Também aprendemos com a idade. Aquilo que se faz cá de mal, cá se paga. Digo muitas vezes que não devemos criticar as pessoas. Todos temos em casa telhados de vidro.

Disseste, recentemente, que as pessoas de Arrifana preferiam que saísses da freguesia e fosses para longe. Nunca sentiste essa necessidade de te esconderes da família e da população?
Nunca senti a necessidade de sair da terra onde nasci. Não estou minimamente preocupada se me querem ou não por perto. Eu vou ao Porto e ninguém me olha como aqui. É uma questão de ignorância da sociedade. Mas não são todos. Há pessoas em Arrifana e em S. João da Madeira que me tratam muito bem.

Tens noção que és uma figura da Terra que todos conhecem?
Tenho essa noção, sim. E fico muito orgulhosa quando tenho pessoas idosas que me entendem e recebem muito bem. Aceitam-me como eu sou. Mais do que muitas pessoas novas.

Aquilo que muitos não sabem é que tu já foste casada...
É verdade. Casei em Espanha porque em Portugal os casamentos não eram válidos. Ma só durou dois anos (risos).

Vestiste-te de noiva?
Claro! Casei-me como se fosse uma mulher. A dada altura, o Padre estava a olhar para as minhas maminhas, deve ter ficado baralhado e eu disse-lhe que eram falsas (risos). Foi tudo meio em segredo. Arrisquei. Não deu certo, como não dá certo com muitos casais.

A tua família foi ao casamento?
Os meus pais não. Foram as minhas irmãs. Mas eu entendi a reação deles. Se percebi…

Viveram juntos em S. João da Madeira…
Sim. Num apartamento. Mas voltei para casa dos meus pais depois do divórcio e por lá continuo.

“Sou mulher com ou sem pénis”

As pessoas tratam-te por ele ou por ela?
Por ela. Mesmo quando vou aos cafés, as pessoas tratam-me com muito carinho: “Olha a Paulinha!!”

Como é que te definirias?
Sou transexual. Não sou homossexual. Isto para resumir numa simples frase: sou a Paulinha de Arrifana, com muito gosto.

Nunca pensaste em mudar de género no registo civil?
Já. Mas depois pensei… Vou mudar o nome para quê se serei sempre a Paulinha?

E em fazer cirurgias de reatribuição de sexo? Porquê?
Também pensei nisso. Mas numa conversa com uma amiga, ela disse-me para não o fazer. Que seria uma grande asneira, e que alterar o sexo não ia alterar nada no que sinto. Sou mulher na mesma, com ou sem pénis. Essa é que é a grande verdade.

Como é que viste a evolução legal que o país viveu em 2018, ao aprovar a lei da autodeterminação de género que permite a jovens como tu mudarem de nome e sexo no Cartão de Cidadão aos 16 anos?
Acho maravilhoso. É sinal que estamos a evoluir, não estamos a parar no tempo. Mas ainda existe um longo caminho a percorrer.

Com a divulgação de casos como o teu pela comunicação social, sentes que o país hoje está mais informado?
Já e a prova disso é que, felizmente, nas novelas já se abordam estes temas, com muita regularidade. 

Trabalhas numa empresa de calçado em S. João da Madeira. Como é o Paulo enquanto trabalhador?
Acho que sou um bom funcionário. Sempre fui cumpridor. Detesto faltar ao trabalho. Já fui trabalhar doente. Acho que é uma questão de respeito por quem nos paga.

Mas gostas daquilo que fazes?
Muito. Sou auxiliar de montagem e lá fazemos um pouco de tudo. Adoro a empresa onde trabalho neste momento, em Arrifana. A minha patroa respeita-me, apoia-me, e isso é muito importante para mim. Digo o mesmo de todos os meus colegas de trabalho. Sinto-me lá acarinhado, e isso também é muito importante.

Um dos teus sonhos era ser modelo fotográfico…
Sim, é verdade.

Tens muitos amigos?
Tenho os suficientes a quem posso chamar amigos. Os que me respeitam como sou. Nesta altura, por causa da pandemia, tenho ficado muito por casa, pois não quero colocar os meus pais em risco.

Não gostas de desporto. Como é que um benfiquista não gosta de futebol?
Nada. Não perco tempo a ver a bola, mas sempre fui do Benfica. Não quer dizer que não veja uma partida de futebol, mas não é isso que me agarra ao televisor.

O que fazes nos teus tempos livres?
Caminhadas, adoro dormir, já gostei mais de ver televisão, e também leio o Regional, o meu pai é assinante (risos).

Consideras-te uma pessoa feliz?
Não vê na minha cara? Estou de máscara, mas pode ver o meu olhar. Tenho que agradecer todos os dias o facto de ter saúde e estar vivo. Tenho ainda os meus pais ao meu lado. Na vida nunca temos tudo. Há pessoas com muito dinheiro e que não são felizes.

Estamos a começar um novo ano. Que desejos fizeste para 2021?
Os que faço todos os anos. Saúde e muito trabalho. E até disse à minha mãe que quero chegar aos 50 anos estar assim com este ar jovem para celebrar a vida. Este é um período em que todos estamos cansados desta pandemia, que já dura há muitos meses, e não sabemos quando vai terminar. Mas acredito que será em breve e que, rapidamente, vamos voltar à vida que tínhamos.

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