Cultura e Lazer

“Pode-se marcar a história da humanidade com produtos de design”

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De uma forma mais séria, começou há cerca de 10 anos, mas a coleção de José Pedro Lima integra também objetos adquiridos na sua adolescência.

Livros, sapatilhas, máquinas de café, computadores e até um carro são alguns dos objetos que integram a coleção privada de José Pedro Lima, que está a caminho das 500 peças.  

O colecionador de raízes sanjoanenses, que vive atualmente no Porto, esclarece a ‘O Regional’ que “o design industrial é basicamente tudo o que nos rodeia e que seja útil à nossa vida, no dia-a-dia, desde relógios a um pacote de chiclets". 

Nesse sentido, José Pedro Lima explica que a sua coleção se foca, temporalmente, no espaço “da Segunda Guerra Mundial até ao ano 2000”, sendo esse o seu “interesse”, ainda que “pontualmente” possa adquirir peças anteriores ou posteriores a esse intervalo. 

O sanjoanense procura ter uma coleção “o mais variada possível em termos de origem, embora haja um foco em marcas europeias e americanas”. Uma vez que há uma limitação temporal, “o que surge na coleção provém de países que, nessa altura, tinham um maior foco no design industrial”. 

Os critérios de seleção passam precisamente pelo impacto das peças na forma como as pessoas vivem. “O meu intuito, quando procuro uma peça nova, é que ela tenha influenciado, de alguma forma, a maneira como nós vivemos”, diz, acrescentando que lhe “interessam mais os objetos que mudaram a nossa relação com o mundo, do que objetos que não o tenham mudado, por mais interessantes que possam ser”. 

Portanto, para o colecionador é “muito mais interessante” o primeiro walkman do que o mais recente, uma vez que foi o primeiro que contribuiu para mudar a forma como as pessoas ouvem música. Nesse sentido, “pode-se marcar a história da humanidade com os produtos de design”. 

De resto, “a coleção tem algumas peças de design português, infelizmente, como nunca fomos muito um país industrial, o nosso design industrial também não pode ser bom – e para mim, colecionador, não é interessante”, justifica José Pedro Lima. 

Há ainda um olhar sobre S. João da Madeira, nomeadamente através das sapatilhas Sanjo, um modelo original de 1947, tendo José Pedro Lima dois pares nunca calçados, o que não foi fácil conseguir. Ainda assim, não conseguiu descobrir quem foi o criador do modelo. 

Infelizmente, os maiores designers portugueses andam muito à volta de algo que não entra na coleção, que é o imobiliário e a iluminação”, observa, detalhando que “por uma questão de espaço e de custo” não tem peças dessas na coleção. 

Dessa forma, “a grande maioria [da coleção] é composta por objetos de porte relativamente pequeno”, ainda que José Pedro Lima tenha um carro e uma bomba de gasolina. O automóvel é um Renault 5, que “revolucionou” a indústria do setor, uma vez que “o Renault 4 era uma viatura do campo com pára-choques em metal, e o Renault 5 aparece, mantendo algumas valências todo-o-terreno, mas tinha pára-choques de plástico para pequenos toques nas cidades não se notarem”. 

Filho dos colecionadores de arte moderna e contemporânea, Norlinda e José Lima, José Pedro Lima considera que a família não teve uma “influência direta” no seu interesse pelo design industrial. “O design e a arte tocam-se, alguns designers foram artistas e alguns artistas foram designers, mais na arquitetura. Mas o colecionismo está dentro de muitos de nós desde crianças, desde coleções de moedas”, refere, acrescentando que a influência familiar foi “seguramente importante para a apreciação estética das coisas”. 

Apesar desta coleção ser de objetos habituais, a forma como eu olho para ela, se calhar, é um bocadinho diferente, não só do ponto de vista utilitário, e essa forma de olhar, se calhar, terá vindo de alguma influência”, sustenta. 

 

Uma década a levar a sério

Foi há 10 anos que começou a levar a coleção de design industrial “mais a sério”, mas integra nela peças que já tinha e que descobriu depois tratar-se de design industrial, como uma lanterna que comprou em S. João da Madeira. “Pelos vistos, desde os meus 12 ou 13 anos que coleciono”, salienta. 

Nos últimos 10 anos, começou a olhar de forma mais “cuidada” para a coleção, que hoje integra 473 peças, ainda que o número seja relativo, pois, por exemplo, “um serviço de chá pode ser visto como uma peça, ou várias”. Dos cuidados tidos faz parte o registo dos objetos. 

Uma forma de valorizar é tentar registar, saber quem é o designer, a que movimento pertence, se foi um sucesso ou não, ter referências bibliográficas, eu tenho isso tudo registado e consigo ter uma perceção”, indica José Pedro Lima. 

E quanto ao valor do conjunto das peças não há nada em concreto a apontar, uma vez que para o colecionador “transcende os números” e, além disso, não se está a falar de um mercado regulado, portanto “é relativamente fácil ver uma coisa ser vendida por 1000€ e, na semana seguinte, ser vendida por 100€ e tê-la comprado por 5€”. Mas há “um conjunto de peças que podem valer alguns milhares de euros” nesta coleção de design industrial. 

Pormenores e “histórias que justifiquem a existência de uma peça em particular” são dois fatores determinantes para o enriquecimento da coleção. “Tipicamente, tento arranjar aquilo que gosto”, acrescenta. Ainda assim, ressalva que houve marcas que apostaram no design, pagando “aos melhores designers do mundo e isso torna essas peças mais valiosas porque há uma teoria e uma prática por trás, para que elas tivessem sucesso”.

Com formação em engenharia e a trabalhar no setor do calçado, José Pedro Lima viaja com frequência por motivos profissionais, aproveitando para visitar feiras de velharias. “Acontece com alguma frequência encontrar uma peça que já tenho, mas se a que tenho está em mau estado, então compro novamente e vendo a que tenho. E, às vezes, isto até dá para ganhar algum dinheiro e investir em mais peças”, confidencia. 

Estar no setor do calçado e viajar tem ajudado a fazer crescer o acervo do colecionador, que também já fez centenas de quilómetros para adquirir alguns objetos. Quando vai, por exemplo, a Milão, procura em sites o que lhe interessa e acaba por ir “aos sítios mais inacreditáveis buscar as coisas mais estranhas”. “Já fiz 300 quilómetros para ir buscar uma máquina de calcular”, conta. 

Além disso, a formação em engenharia “dá jeito para algumas coisas”, como para as pôr “a funcionar quando estão avariadas” e também para “perceber por que é que funcionam assim, foram feitas assim e não de outra forma”. 

Planos para a coleção

A coleção de José Pedro Lima já esteve exposta na Escola Superior de Artes e Design, em Matosinhos, por ocasião da inauguração do centro de investigação daquela instituição, o IDEA. Eu vivo com elas todos os dias na minha casa, mas estavam expostas e foi engraçado vê-las assim”, recorda o colecionador. 

Também para uma exposição na Casa do Design de Matosinhos foi um conjunto de telefones de casa de José Pedro Lima. O colecionador mostra recetividade para mostrar as peças que, como são, maioritariamente objetos do dia-a-dia, “podem ser transportadas sem problemas maiores”. 

Além do interesse em expor em qualquer local, incluindo S. João da Madeira, há também a ideia de publicar um livro para destacar alguns objetos. Assim, “fazer um livro com algumas peças chave da coleção e fazer mais exposições é seguramente um objetivo” de José Pedro Lima. 

 

A história do design também pode ser cíclica 

O interesse pelo design industrial fez José Pedro Lima perceber que quando as peças são “bem desenhadas, funcionam bem e satisfazem as pessoas, elas voltam à marca” e quando são “mal desenhadas, a probabilidade disso acontecer é mais reduzida”. 

Apesar de reconhecer que, por exemplo, a Apple “continua a ser importante”, o colecionador observa que “já lá vai o tempo em que as pessoas compravam telemóveis da Apple, porque eram da Apple". 

Se o design for honesto, correto e funcional só aproveita à marca e houve marcas que consistentemente conseguiram fazê-lo”, considera, acrescentando que “a Sony durante décadas conseguiu fazê-lo”. 

José Pedro Lima, mostrando os objetos, vai dando alguns exemplos do que resultou e do que não resultou. Há um moinho de café que quando vemos “sabemos imediatamente como funciona: se tirar a tampa e coar o café dentro e carregar no botão vai moer o café”. Trata-se de uma “simplicidade [que] é muitas vezes esquecida pelos designers”. Mas o proprietário do moinho gostou dele porque não precisa de manual de instruções. “O melhor elogio que se pode fazer a um produto é vendê-lo sem manual de instruções”, entende. 

Por outro lado, há um produto que só está na coleção “por ser absurdo”. Trata-se de uma chaleira, desenhada por Philippe Starck, mas que não funciona. “Uma chaleira sem tampa não dá jeito nenhum e além disso não pode ser lavada”. Por não ter funcionado, é agora um “objeto raro, fizeram umas 10 mil e ficou por aí". “Às vezes, quando se tem demasiados meios, fazem-se coisas absurdas, isto é aquilo que não queremos que aconteça no design”, sublinha José Pedro Lima. 

Há ainda um interruptor “simples e muito bem desenhado”, que por isso mesmo “já se faz há 60 anos e continua a vender e a ser copiado”. 

Mas a história do design também pode “repetir-se”, tal como aconteceu com os telemóveis que se inclinam e as funcionalidades do ecrã passam da horizontal para vertical e vice-versa. Nos anos 70, já havia uma televisão a preto e branco da marca Sony, cujo ecrã rodava para quem “quisesse ver televisão deitado”. “Pensamos que foi uma boa invenção recente, mas já alguém tinha tido a mesma ideia 50 anos antes”, remata o colecionador.

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