Opinião

Haja noção no confinamento

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Nos últimos dias, temos sido confrontados com a subida brutal dos números referentes à incidência da pandemia COVID-19 em Portugal. Todos os indicadores têm aumentado substancialmente. Os infectados. Os internados. Os internados em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) e, tragicamente, os mortos a lamentar. Se esta realidade é dramática comparada com a que tivemos há pouco menos de um ano, quanto tivemos de confinar. Pior, é constatar que estamos a comparar pior que nunca com os outros países. Houve dias em que fomos mesmo o país em que mais aumentaram os infectados por milhão de habitantes. Chegados aqui, antes de irmos ao actual confinamento, há que reflectir sobre duas questões: porque estão a aumentar tanto as infecções e as mortes? E, porque está a ser pior em Portugal do que na esmagadora maioria dos outros países?
O aumento de casos e de mortes era previsível. Vários foram os especialistas, nacionais e estrangeiros, que alertaram para isso. Aliás, logo depois do verão começou a sentir-se esse aumento. Juntando ao agravamento das condições meteorológicas uma nova estirpe da doença, estão criadas as condições para esta evolução negativa. Para além disso, há o desespero de quem tenta manter o seu negócio ou emprego e o cansaço de todos que leva a algum relaxamento. Mas aqui espera-se que o estado cumpra a sua função apoiando quem está em situação difícil e protegendo quem está mais exposto.
O facto de a evolução ser pior em Portugal está directamente associado à falta de planeamento e antecipação. Enquanto noutros países este crescimento foi antecipado e foram tomadas medidas para o combater, em Portugal continuou a falar-se do milagre português e de um sucesso que está longe de o ser.
Perante esta realidade o governo voltou ao regime do estado de emergência e tomou medidas, em muitos casos difíceis de compreender. De todas, a mais dramática foi a do encerramento dos estabelecimentos de restauração e dos supermercados às 13 horas, ao fim-de-semana. Se sabemos que os prejuízos económicos e sociais desta medida são gigantescos, nunca se provou que tivesse qualquer efeito na prevenção de contágios. Pelo contrário. Concentrar na manhã de sábado todas as pessoas e as tarefas que podiam ser distribuídas pelo fim-de-semana aumentou os contactos e a exposição ao vírus. E tantas foram as vezes que se avisou o governo desta realidade, sem que houvesse o mínimo de sensibilidade. Resultado, não se impediu que o início do ano fosse a tragédia que está a ser em termos de saúde.
Agora o governo vem com um novo confinamento. Idêntico ao anterior, dizia o Primeiro-Ministro (PM). Mas logo na apresentação ficou claro que o número de excepções era tão grande que não podia dizer-se que o confinamento era idêntico ao anterior. Aliás, é difícil chamar confinamento ao conjunto de medidas que foi apresentado. Resultado, todos constatámos, nos dias seguintes, que pouca era a diferença na circulação e no contacto entre pessoas. Mas os restaurantes e o pequeno comércio voltavam a pagar a factura. Com inúmeros negócios e postos de trabalho a serem postos em causa. Pouco dias depois, o PM descobriu que se tinha enganado e encontrou o problema para que o confinamento não estivesse a existir. A culpa era das vendas ao postigo.
Em conclusão, podemos defender um combate à pandemia mais ou menos intenso. Há bons exemplos de ambas as soluções. Casos em que se manteve a economia a funcionar, apostando na testagem regular. E casos em que se apostou num confinamento verdadeiramente geral durante um período de tempo limitado. O governo podia ter escolhido qualquer um destes caminhos, mas tem de ter noção que o que está a fazer não é nada. Nem mantém a economia a funcionar em condições, nem inverte a tendência de crescimento dos indicadores e sobretudo das mortes. É hora de o governo ser claro, escolher um caminho e recuperar a sua credibilidade junto dos portugueses.

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